Economia

Recompras de ações crescem 44% na B3 em 2021

Ações

Queda do Ibovespa, ações com preços atrativos, caixa cheia e empresas menos endividadas. A combinação desses fatores levou a um forte crescimento na abertura de programas de recompra de ações, principalmente no segundo semestre do ano, quando as ações caíram mais.

De acordo com o banco de dados da CVM sobre o assunto, de janeiro a dezembro do ano passado foram abertos 108 programas, contra 75 no ano anterior, um aumento de 44%, e dezembro, com 18, foi o mês com mais recompras .

Janeiro parece manter o ritmo do ano passado, com oito anúncios nos primeiros 17 dias de 2022.

“O mercado de ações brasileiro teve uma liquidação muito importante, passando de 130 mil pontos para cerca de 100 mil pontos em poucos meses”, disse Carlos Eduardo Sequeira, chefe de pesquisa e análise para América Latina do BTG Pactual.

O Ibovespa encerrou 2021 com queda de 11,93%.

Ele acrescenta que o valor do mercado de ações, como um todo, está em patamares considerados atrativos, negociando abaixo da média histórica. “As empresas projetam seus orçamentos para o próximo ano nesta época de dezembro. Eles devem ter se sentido à vontade para fazer seus anúncios, além de aproveitar o fato de que as ações estão baratas”, disse ele.

As recompras são uma forma de as empresas públicas darem mais recursos aos acionistas. As ações recompradas reduzem a quantidade em circulação e, portanto, aumentam a participação dos investidores na distribuição de dividendos. A ferramenta também é usada para mostrar confiança ao mercado de que os preços vão subir.

Foi o caso da empresa de logística Sequoia. No anúncio do programa de recompra, neste mês, a empresa deixou claro que considera suas ações baratas. “Na visão da administração da empresa, o valor atual de suas ações não reflete o real valor de seus ativos aliado às perspectivas de rentabilidade e geração de resultados futuros”, afirma no documento.

O Bradesco, que geralmente não gosta muito de recompras, passou a utilizá-las de forma mais ativa no ano passado, em meio à pressão sobre as ações do setor financeiro provocada pela pandemia e pelo aumento da concorrência. Quando o banco anunciou a medida em abril, disse que adotaria as recompras como instrumento de gestão de seu nível de capital e como complemento da remuneração aos acionistas.

“Grandes empresas, como Vale e bancos, regularmente deixam seus programas ativos, para quando necessário. Outras empresas, por outro lado, tiveram forte queda de preços e recompraram as ações por um valor mais barato”, disse Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

A construção foi um dos setores que mais anunciaram recompras em 2021, em linha com o desempenho das ações do segmento, que caíram 31%, disse Rafael Passos, sócio do Ajax Capital. No entanto, ele observa que outras atividades ligadas à economia doméstica também tiveram desempenho inferior. “As empresas locais sofreram muito. O mesmo aconteceu com o consumo. Vários, incluindo o varejo, anunciaram recompras. O consumo teve uma desvalorização de 26% na bolsa”, disse.

Antonio Marcos Samad Júnior, CEO da mesa proprietária Axia Investing, destaca que o cenário de inflação e juros altos somados às eleições “puniu” muitas empresas com a fuga de investidores. “Muitas empresas estão negociando abaixo de seu valor patrimonial, o que não faz sentido se a empresa estiver em boa saúde financeira.”

Além da queda dos preços, o fato de as empresas estarem capitalizadas contribuiu para o impulso de recompra. Em 2021, muitas empresas foram ao mercado e estão com posições confortáveis ​​nas demonstrações financeiras, disse Sequeira. Por isso, afirma que “não surpreende” que a onda de anúncios se estenda até 2022. “A dívida consolidada das empresas cotadas ou a dimensão da alavancagem caiu muito nos últimos anos”.

Uma pesquisa do BTG com 200 empresas listadas na B3 sugere um índice de endividamento líquido de 3 vezes em 2015, quando o país entrou em recessão. O banco estima que o indicador tenha caído para perto de 1,2 vezes no ano passado.

Além disso, as empresas vêm precificando as eleições deste ano, o que tende a gerar volatilidade no mercado de ações. “Depois da eleição, estou razoavelmente confiante de que o Ibovespa será negociado a valores mais altos do que hoje, independentemente de quem vencer [para presidente]”, disse Sequeira, do BTG.

O Sr. Moliterno, da Veedha, também acredita que as recompras continuarão em níveis fortes, e que as empresas podem encerrar programas já divulgados e iniciar novos se os estoques continuarem em preços baixos. “É natural, pois tivemos uma queda muito acentuada no mercado de ações. É provável que as empresas mantenham seus programas ativos como forma de se proteger de oscilações mais acentuadas.”

As empresas podem recomprar até 10% do total de ações em circulação, mas os programas nem sempre são tão abrangentes. A empresa também não precisa recomprar todo o valor anunciado. Em geral, os anúncios indicam o valor máximo que pode ser recomprado. “O volume subiu em 2021 em relação a 2020 e deve aumentar novamente este ano”, disse Sequeira, do BTG, sem detalhar a quantidade comprada.

Para Enrico Cozzolino, sócio e head de análise da Levante Ideias de Investimento, ninguém melhor do que a própria empresa para saber se suas ações estão baratas. “A empresa pode ter muito dinheiro em caixa e ao invés de alocar o capital em um investimento com liquidez diária, mas ruim, pode comprar ações pensando no ROE [retorno sobre o patrimônio] mais atrativo”, disse.

Voltar ao Topo