RESUMO DA NOTÍCIA
- Joel Shulman, CEO e diretor de investimentos da ERShares, classificou a SpaceX como uma tese de investimento de até 20 anos.
- Acionistas da SPCX estão expostos ao crescimento da Starlink, à operação de lançamentos e aos investimentos bilionários em inteligência artificial.
- A companhia cresce rapidamente, mas ainda registra prejuízo, exige muito capital e aposta em projetos incertos, como infraestrutura de computação em órbita.
SpaceX por 20 anos? Gestor aposta na SPCX, mas prejuízos e IA exigem cautela
As ações da SpaceX voltaram a ser negociadas próximas dos US$ 135 definidos em sua oferta pública inicial, realizada em junho de 2026. A queda em relação às máximas alcançadas na estreia reacendeu o debate sobre a avaliação da companhia e o potencial de seus negócios no longo prazo.
Joel Shulman, CEO e diretor de investimentos da ERShares, afirmou que considera a SpaceX uma tese para até 20 anos. Em participação na Schwab Network, o gestor declarou que enxerga a empresa liderada por Elon Musk como uma possível futura líder entre as maiores companhias de tecnologia do mundo.
A avaliação é extremamente otimista e representa a opinião do gestor, não uma projeção garantida. Os documentos oficiais da SpaceX mostram uma empresa com crescimento acelerado e posições relevantes em lançamentos e conectividade, mas também revelam prejuízos, despesas elevadas e projetos que podem levar anos para gerar retorno.
Tese de 20 anos está apoiada em três negócios
A visão apresentada por Shulman considera a SpaceX como uma companhia sustentada por três grandes frentes: serviços espaciais, conectividade por meio da Starlink e inteligência artificial.
A própria empresa adotou essa divisão em sua apresentação aos investidores. Segundo o prospecto protocolado na SEC, a plataforma combina infraestrutura de lançamento, comunicação por satélite e IA após a integração da xAI.
Shulman acredita que essa combinação pode colocar a SpaceX em posição semelhante à ocupada pela Nvidia durante a expansão da computação acelerada. A comparação, porém, deve ser vista como uma tese pessoal: as empresas possuem modelos de negócios, estruturas financeiras e riscos diferentes.
| Frente de negócio | O que está no radar | Por que importa | Ponto de atenção |
|---|---|---|---|
| Lançamentos espaciais | Evolução da Starship e aumento da frequência de missões | Pode reduzir custos e ampliar a capacidade de colocar cargas em órbita | Atrasos, falhas técnicas e exigências regulatórias |
| Starlink | Crescimento de clientes e expansão para aviação, empresas, governos e telefonia móvel | É o principal negócio gerador de resultado operacional ajustado | Concorrência, necessidade de novos satélites e licenças de espectro |
| Inteligência artificial | Integração da xAI, Grok e infraestrutura computacional | Pode ampliar o mercado atendido pela companhia | Segmento ainda deficitário e intensivo em capital |
| Computação em órbita | Possível implantação de satélites dedicados à IA | Representaria uma nova fonte de receita e capacidade computacional | Tecnologia não comprovada comercialmente e sujeita a elevado risco |
Starlink é o principal fundamento da SpaceX
A Starlink aparece como a parte mais consolidada da tese. Em 31 de março de 2026, a rede atendia aproximadamente 10,3 milhões de clientes em 164 países, territórios e outros mercados. A estrutura contava com cerca de 9.600 satélites em órbita.
O segmento de conectividade registrou Ebitda ajustado de US$ 7,2 bilhões em 2025, acima dos US$ 3,8 bilhões do ano anterior. O Ebitda ajustado é uma medida que procura mostrar o desempenho operacional antes de determinados efeitos contábeis, mas não equivale ao lucro líquido.
O crescimento da Starlink ajuda a explicar o otimismo. A mesma infraestrutura pode atender residências, empresas, embarcações, aeronaves, governos e operadoras móveis por meio de planos e contratos distintos.
Isso permite ampliar a receita sem a necessidade de construir redes terrestres tradicionais em todas as regiões. Por outro lado, a operação exige substituição periódica dos satélites, novos lançamentos e investimentos permanentes na ampliação da capacidade.
SpaceX cresce, mas ainda registra prejuízo
A SpaceX informou receita de US$ 18,7 bilhões em 2025, crescimento de 33% sobre o ano anterior. Apesar dessa expansão, a companhia registrou prejuízo líquido de aproximadamente US$ 4,94 bilhões no período.
No primeiro trimestre de 2026, o prejuízo líquido chegou a cerca de US$ 4,28 bilhões. A empresa também declarou déficit acumulado de US$ 41,3 bilhões ao final de março.
Outro ponto relevante é a intensidade dos investimentos. As despesas de capital somaram US$ 20,7 bilhões em 2025, direcionadas principalmente à infraestrutura de IA, aos satélites, às instalações de lançamento e ao desenvolvimento da Starship.
Esses números não invalidam a possibilidade de crescimento, mas mostram que a tese depende da capacidade de transformar investimentos elevados em receita e fluxo de caixa ao longo dos próximos anos.
Data centers no espaço ainda são uma possibilidade
Uma das partes mais ousadas da tese defendida por Shulman envolve a instalação de infraestrutura computacional em órbita. A ideia seria utilizar a capacidade de lançamento da própria SpaceX para colocar no espaço satélites dedicados ao processamento de inteligência artificial.
A companhia mencionou em seus documentos a possibilidade de começar a implantar infraestrutura orbital de IA a partir de 2028. Esse cronograma é uma projeção e depende de avanços técnicos, aprovações regulatórias, disponibilidade de capital e evolução da Starship.
A SpaceX também alertou que ainda não implantou comercialmente essa infraestrutura. Questões como resfriamento dos equipamentos, exposição à radiação, manutenção, transmissão de dados e rápida obsolescência dos chips precisam ser resolvidas em escala economicamente viável.
Por isso, os data centers espaciais devem ser tratados como uma opção de crescimento de alto risco, e não como uma fonte de receita já existente.
Avaliação elevada aumenta a exigência por resultados
A SpaceX realizou seu IPO a US$ 135 por ação em 12 de junho de 2026. A oferta envolveu aproximadamente 555,6 milhões de ações e colocou a companhia entre as maiores estreias da história do mercado de capitais.
Durante a entrevista de 14 de julho, as ações estavam próximas de US$ 139, depois de terem avançado com força nos primeiros dias de negociação. O retorno ao redor do preço da oferta não significa, por si só, que o papel esteja barato.
A avaliação ainda incorpora expectativas elevadas para a Starlink, a Starship, a inteligência artificial e negócios que sequer foram comercialmente comprovados. Qualquer atraso, aumento de custos ou crescimento abaixo do esperado pode provocar volatilidade.
A companhia também informou que não pretende pagar dividendos no futuro próximo. Assim, eventual retorno ao acionista dependerá principalmente da valorização das ações, o que pode não ocorrer.
Controle de Elon Musk também merece atenção
Após a oferta, Elon Musk permaneceu com aproximadamente 84,4% do poder de voto da SpaceX, segundo os documentos apresentados aos investidores.
Essa estrutura permite decisões rápidas e preserva a estratégia definida pelo fundador, mas limita a influência dos acionistas minoritários. A própria companhia reconhece a dependência da liderança e do envolvimento de Musk como um fator de risco.
Para o investidor brasileiro, também devem ser considerados a variação do dólar, os custos da corretora, a tributação aplicável aos ativos no exterior e a maior volatilidade comum às empresas recém-listadas.
O QUE OBSERVAR AGORA
Principal ponto de atenção: a capacidade da Starlink de continuar crescendo e financiar os investimentos em Starship, inteligência artificial e infraestrutura orbital.
Risco ou limitação: a SpaceX ainda registra prejuízo, possui elevada necessidade de capital e atribui parte importante de sua avaliação a projetos de longo prazo que podem atrasar ou não se tornar comercialmente viáveis.
Próximo dado importante: o primeiro balanço trimestral após o IPO deverá oferecer uma leitura mais atual sobre clientes da Starlink, despesas de capital e perdas do segmento de IA. A eventual divulgação em 6 de agosto ainda depende de confirmação formal da companhia.
Tese combina negócios reais e expectativas ambiciosas
A SpaceX reúne ativos difíceis de replicar, como foguetes reutilizáveis, infraestrutura própria de lançamento e uma rede global de satélites. Esses fatores sustentam parte da confiança demonstrada por Shulman.
No entanto, classificar a ação como uma tese de 20 anos exige aceitar riscos tecnológicos, financeiros, regulatórios e de governança. O desempenho da Starlink já pode ser analisado com dados operacionais, enquanto a computação orbital e parte das iniciativas de IA permanecem no campo das projeções.
Mais do que acompanhar declarações otimistas, o investidor deverá observar se o crescimento da receita será acompanhado por redução dos prejuízos, geração consistente de caixa e disciplina na destinação do capital.
Aviso: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e jornalístico. Não representa recomendação de compra, venda ou manutenção de ações, FIIs, títulos públicos, títulos privados, criptomoedas ou qualquer outro ativo financeiro. Antes de investir, avalie seu perfil, seus objetivos, os riscos envolvidos e consulte profissionais autorizados, se necessário.