As ações do Banco do Brasil voltaram a ser negociadas próximas de R$ 20, reacendendo entre os investidores a dúvida sobre uma possível oportunidade de compra. A cotação chama atenção por estar muito abaixo do valor patrimonial por ação, mas o desconto não elimina os riscos relacionados à inadimplência, às provisões para perdas e à redução dos dividendos.
Em julho de 2026, BBAS3 oscilava na região de R$ 20, depois de ter começado o ano acima de R$ 21. O histórico disponibilizado pelo próprio Banco do Brasil mostra que o papel fechou a R$ 20,67 em 10 de julho, enquanto outras plataformas de mercado registravam preços entre R$ 20,00 e R$ 20,58 nos pregões mais recentes.
O preço aparentemente baixo, entretanto, precisa ser analisado junto com a capacidade de geração de lucro, a qualidade da carteira de crédito e a expectativa de recuperação dos resultados.
BBAS3 está barata a R$ 20?
A resposta muda conforme o indicador utilizado.
Pela relação entre preço e lucro, conhecida como P/L, BBAS3 não apresenta necessariamente uma barganha histórica. O papel negocia perto de seis a sete vezes o lucro projetado para 2026, múltiplo que parece baixo em comparação com outras empresas da Bolsa, mas que precisa ser relativizado diante da queda nos resultados do banco.
Em anos anteriores, o Banco do Brasil chegou a negociar abaixo de cinco vezes o lucro, mesmo apresentando rentabilidade e resultados superiores aos atuais. Portanto, considerar apenas o P/L pode transmitir uma percepção exagerada de desconto.
A situação muda quando a análise considera o patrimônio líquido. Com o indicador preço sobre valor patrimonial, ou P/VP, próximo de 0,60 vez, o mercado paga aproximadamente R$ 0,60 por cada R$ 1,00 de patrimônio contábil do banco.
Isso representa um desconto próximo de 40%.
Caso o valor patrimonial por ação esteja ao redor de R$ 33, uma cotação de R$ 20 corresponderia a aproximadamente 61% desse patrimônio. O indicador sugere que o mercado já incorpora uma parcela relevante dos problemas atuais, mas não significa que a ação retornará automaticamente ao valor contábil.
Principais números de BBAS3
| Indicador | Valor ou estimativa |
| Cotação de referência | Próxima de R$ 20,00 |
| P/L estimado para 2026 | Aproximadamente 6 a 7 vezes |
| P/VP aproximado | 0,60 vez |
| Desconto sobre o patrimônio | Cerca de 40% |
| Payout definido para 2026 | 30% |
| Crescimento esperado da carteira em 2026 | 0,5% a 4,5% |
| Crescimento esperado da margem financeira | 7% a 11% |
| Custo de crédito projetado | R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões |
| Lucro líquido ajustado projetado | R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões |
O Banco do Brasil revisou suas projeções para 2026 após a deterioração do crédito. A instituição manteve a previsão de crescimento da carteira entre 0,5% e 4,5%, mas elevou a estimativa para o custo de crédito de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões para uma faixa entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões.
Ao mesmo tempo, a projeção de lucro líquido ajustado foi reduzida de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões.
Esse movimento ajuda a explicar por que BBAS3 permanece descontada: mesmo com a expansão das receitas financeiras, uma parcela maior do resultado está sendo consumida pelas provisões contra possíveis calotes.
Margem financeira mostra que o banco continua gerando receita
Um dos pontos positivos da tese é o crescimento da margem financeira bruta, que representa o resultado obtido pelo banco com operações de crédito, captações, títulos e outras atividades financeiras.
De acordo com os números apresentados no esboço analisado, a margem financeira superou R$ 27 bilhões, com avanço anual próximo de 14,8%. A própria administração aumentou a projeção de crescimento da margem financeira de uma faixa entre 4% e 8% para um intervalo entre 7% e 11% em 2026.
Isso indica que o problema central não está na ausência de negócios ou na incapacidade de emprestar dinheiro. O banco continua gerando receitas, mas enfrenta uma elevação relevante das despesas com provisões.
Na prática, a retomada do lucro dependerá de uma combinação de três fatores: redução da entrada de créditos problemáticos, estabilização da inadimplência e normalização das provisões.
Carteira de crédito continua próxima de R$ 1,3 trilhão
Outro ponto favorável é a dimensão da carteira de crédito, que permanece próxima de R$ 1,3 trilhão. Mesmo em ritmo mais moderado, o Banco do Brasil continua expandindo suas operações em segmentos nos quais possui participação relevante, como agronegócio, crédito consignado, empresas e setor público.
O crescimento da carteira cria potencial para receitas futuras, mas também aumenta a necessidade de controle sobre a qualidade das concessões.
No agronegócio, o banco enfrenta dificuldades relacionadas ao aumento de recuperações judiciais, à renegociação de dívidas rurais e aos efeitos de condições climáticas adversas sobre algumas safras. Como o BB é um dos principais financiadores do setor, a piora na capacidade de pagamento dos produtores tem impacto direto sobre suas provisões.
Índice de cobertura ainda oferece proteção
O índice de cobertura do Banco do Brasil está próximo de 158%. Isso significa que, para cada R$ 100 em créditos vencidos há mais de 90 dias, o banco mantém aproximadamente R$ 158 em provisões.
O percentual já esteve acima de 200%, mas o nível atual ainda mostra que a instituição possui reservas superiores ao volume dos atrasos classificados nessa faixa.
Além disso, os dados apresentados pelo banco indicaram redução na entrada de novos créditos problemáticos e aumento da cobertura desses contratos. O estoque de entradas problemáticas teria recuado de aproximadamente R$ 24 bilhões para perto de R$ 15 bilhões.
A melhora precisa continuar nos próximos trimestres para confirmar que a pior fase do ciclo de crédito ficou para trás.
Dividendos do Banco do Brasil devem continuar menores
O Conselho de Administração aprovou um payout de 30% para 2026. Isso significa que o banco pretende distribuir aos acionistas aproximadamente 30% do lucro obtido no exercício, por meio de dividendos e juros sobre capital próprio.
O percentual é significativamente inferior ao observado nos períodos em que o Banco do Brasil distribuía uma parcela maior de seus resultados.
No primeiro trimestre de 2026, o banco aprovou R$ 465,70 milhões em juros sobre capital próprio, equivalentes a R$ 0,0816 por ação. Outros R$ 400,40 milhões já haviam sido pagos antecipadamente em março. O pagamento complementar ocorreu em 11 de junho, com retenção de Imposto de Renda aplicável ao JCP.
Com o payout reduzido e o lucro pressionado, a expectativa é que o dividend yield fique próximo de 5% em 2026, abaixo dos níveis de dois dígitos registrados em anos anteriores.
Quanto BBAS3 pode pagar em dividendos?
As projeções apresentadas no esboço apontam dividendos de aproximadamente:
| Ano | Provento estimado por ação |
| 2026 | R$ 0,88 |
| 2027 | R$ 1,47 |
| 2028 | R$ 1,91 a R$ 1,98 |
Esses números não constituem uma garantia de pagamento. Os valores dependerão do lucro, do payout, das decisões do Conselho de Administração e da evolução da qualidade do crédito.
Considerando uma cotação de R$ 20 e proventos de R$ 0,88 por ação em 2026, o retorno estimado seria de aproximadamente 4,40%. Com R$ 1,47 em 2027, o rendimento potencial subiria para 7,35%.
Caso os proventos alcancem R$ 1,98 em 2028, o dividend yield sobre um preço de aquisição de R$ 20 seria de 9,90%.
Qual seria o preço-teto de BBAS3?
O preço-teto pode ser calculado dividindo o dividendo anual esperado pela taxa mínima de retorno exigida pelo investidor.
Usando uma projeção de R$ 1,98 por ação para 2028, os valores seriam:
| Retorno mínimo desejado | Preço-teto estimado |
| 6% | R$ 33,00 |
| 7% | R$ 28,29 |
| 8% | R$ 24,75 |
| 9% | R$ 22,00 |
| 10% | R$ 19,80 |
Para quem exige retorno mínimo de 8% ao ano em dividendos, o preço-teto seria de R$ 24,75, arredondado para R$ 25.
Já um investidor mais conservador, que busca rendimento de 10%, encontraria um preço máximo próximo de R$ 19,80. Nesse cenário, BBAS3 negociada a R$ 20 estaria praticamente no limite.
O cálculo, porém, depende de o banco realmente conseguir pagar R$ 1,98 por ação em 2028. Uma nova redução do lucro ou do payout diminuiria o preço-teto.
Parcelamento de obrigação com o Tesouro alivia o curto prazo
Outro fator acompanhado pelo mercado é a repactuação de uma obrigação do Banco do Brasil com o Tesouro Nacional.
Segundo as informações apresentadas, o banco evitará um desembolso superior a R$ 4 bilhões de uma só vez. O cronograma prevê pagamentos de aproximadamente R$ 100 milhões em 2026, R$ 100 milhões em 2027, R$ 1 bilhão em 2028 e R$ 2,9 bilhões em 2029.
A medida preserva capital no curto prazo, justamente durante um período de aumento das provisões. Em contrapartida, concentra desembolsos mais elevados em 2028 e 2029, o que pode limitar a distribuição de dividendos nesses exercícios.
Próximo balanço será decisivo
O Banco do Brasil divulgará as informações financeiras do segundo trimestre de 2026 em 12 de agosto. A apresentação pública dos resultados está prevista para 13 de agosto, conforme o calendário oficial da instituição.
Os investidores deverão acompanhar principalmente:
- evolução da inadimplência do agronegócio;
- volume de provisões;
- custo de crédito;
- margem financeira;
- crescimento da carteira;
- índice de cobertura;
- manutenção ou nova revisão das projeções anuais.
Uma estabilização das provisões, acompanhada de margem financeira crescente, poderia fortalecer a expectativa de recuperação do lucro. Uma nova piora da inadimplência, por outro lado, aumentaria o risco de revisão negativa das projeções.
Afinal, BBAS3 a R$ 20 é compra?
BBAS3 próxima de R$ 20 apresenta um desconto patrimonial expressivo e pode oferecer valorização caso os lucros e dividendos se recuperem a partir de 2027. O banco mantém uma carteira de crédito robusta, capacidade de geração de receita e posição relevante em segmentos estratégicos.
Entretanto, a ação não está livre de riscos. O custo de crédito permanece elevado, a inadimplência rural exige acompanhamento, o payout caiu para 30% e os dividendos de curto prazo devem ser menores.
Por isso, o preço atual pode ser considerado atrativo dentro de uma estratégia de longo prazo, mas não representa uma oportunidade sem riscos. A decisão deve considerar a tolerância à volatilidade, o tamanho da exposição a empresas estatais e a participação de BBAS3 na carteira.
Mais importante do que apostar em uma recuperação imediata é evitar concentração excessiva. Mesmo quando existe desconto, aportes graduais e diversificação reduzem o impacto de uma eventual deterioração adicional dos resultados.