Economia

Crise aumenta pressão sobre varejo no final do ano

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Com a Black Friday e os feriados de fim de ano se aproximando, os principais varejistas trabalham com estoques acima de 2020 e no meio do ano, conforme os lucros caem. Esse cenário pressiona ainda mais as redes para que vendam estoques de mercadorias com margens maiores nos próximos meses.

A descoberta vem de relatórios anuais e do terceiro trimestre divulgados nos últimos dias. O Valor analisou os resultados das 10 principais redes públicas: Americanas, Magazine Luiza, Via, Allied, Renner, Riachuelo, C&A, Marisa, Hering e Arezzo.

Algumas redes até aumentaram as provisões para perdas no acumulado do ano para tentarem se proteger caso os níveis de inadimplência aumentem, visto que a aceleração da inflação vem afetando a receita.

Apesar da falta de alguns bens duráveis, reflexo da crise na cadeia produtiva global, os varejistas conseguiram negociar compras maiores na esperança de aumento na demanda. De acordo com os dados dos relatórios trimestrais, ao final de setembro, as 10 maiores redes brasileiras tinham R $ 27,5 bilhões em estoque, alta de 8,3% em relação a junho (R $ 25,2 bilhões) – uma expansão de um dígito também pode sinalizar certa cautela no estoque.

Em relação a setembro de 2020, quando a demanda por eletroeletrônicos já estava crescendo graças à ajuda emergencial federal paga durante a pandemia, o aumento nominal, não ajustado pela inflação, é maior (29%).

“Os grandes varejistas compraram o que puderam neste cenário de maior disrupção, mas respeitando uma projeção conservadora. É preciso considerar a volta das lojas físicas, o que sempre ajuda, mas também leva em conta toda a deterioração de receita verificada neste ano ”, disse Roberto Wajnsztok, fundador da Origin5 Consultoria e ex-executivo do Walmart.com.

A análise também mostra margens mais baixas devido aos maiores custos das mercadorias no segundo semestre do ano. Das 10 cadeias, nove relataram margem bruta inferior trimestre a trimestre, enquanto quatro cadeias tiveram taxas mais baixas em comparação com o ano anterior.

Os resultados reforçam a estratégia de oferecer descontos menores na Black Friday e feriados de fim de ano. A incerteza sobre um novo enfraquecimento do real em 2022 – o que aumenta os custos e pode obrigar as empresas a desembolsar mais capital de giro para a compra de bens – também desempenha um papel.

O real desvalorizado eleva o custo dos produtos vendidos pelas lojas (medido pelo valor de compra dos produtos), o que reduz o lucro bruto e a margem. Para que a lucratividade seja preservada, as vendas precisam aumentar mais do que o custo.

“É improvável que vejamos descontos agressivos este ano. Claro, as redes vão tentar gerar buzz e anunciar produtos com até 80% de desconto. Mas eles provavelmente serão mais exigentes e iniciarão esforços muito mais dependentes de descontos oferecidos por vendedores independentes em seus mercados online. Só vejo campanhas mais ousadas em sites estrangeiros, que entram e precisam fazer barulho, como o Shopee ”, disse Gabriel Lima, CEO da consultoria Enext e ex-executivo da Americanas.

Abel Ornelas — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Abel Ornelas — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Abel Ornelas, diretor comercial e de operações da Via (redes Casas Bahia e Ponto), lembra que serão oferecidos descontos sobre os preços de lista atuais, que já incluem os reajustes feitos pelo setor neste ano. “Por causa da inflação que vem elevando o preço dos eletroeletrônicos, isso dá ao consumidor a sensação de que o preço com desconto, no final das contas, só vai voltar ao de alguns meses atrás. Desta forma, perde-se um pouco a percepção de grandes descontos. Mas considerando as pressões de custo do setor, a Via tem razão: precisa trabalhar com os novos preços ”, disse.

O Sr. Ornelas, da Via, disse que o nível de estoque do grupo em setembro (equivalente a 137 dias de vendas, contra 122 dias em junho) tem se mantido neste nível desde então, com pouca variação, e entre os esforços para atrair pedestres está oferecendo descontos na Black Friday durante um número maior de dias “para dar aos consumidores tempo para comparar e escolher melhor”, disse ele.

Ele não quis entrar em detalhes sobre o volume de descontos, mas disse que, se a Black Friday não for tão boa, a estratégia se voltará para os feriados de fim de ano. “Há alguns anos, dezembro era ‘esquecido’ entre a Black Friday e as vendas de janeiro. Isso está mudando. O Natal está voltando ao que costumava ser, atraindo vendas maiores. ”

Na mesma linha, o Magazine Luiza já mencionou que tentará “fazer um Natal diferente”, disse o CEO Frederico Trajano a analistas, dias atrás. “Acho que o Natal está esquecido há muito tempo, queremos voltar a ter um Natal mais forte, para retomar o crescimento das lojas e a contribuição do resultado tão importante [da data] para o nosso curto prazo”, disse.

Para tentar reduzir o estoque de mercadorias, atraindo mais clientes aos sites e lojas neste final de ano, as empresas caçam consumidores e aumentam o volume de campanhas de marketing.

Pelos cálculos da RD Station, que automatiza e gerencia campanhas digitais, haverá um aumento de 29% nos e-mails com publicidade na Black Friday neste ano, ante 1,4 bilhão enviado em novembro de 2020 e 1,8 bilhão neste ano. Isso equivale a 60 milhões de mensagens encaminhadas por dia no país. É como se, a cada dia, pelo menos um em cada quatro brasileiros recebesse alguma oferta de varejistas e indústrias.

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