Economia

Em meio à crise, brasileiros trocam gás por lenha para cozinhar

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Jaqueline de Oliveira, mãe solteira de Itamaraju, no Nordeste da Bahia, cozinha em fogo de lenha ou carvão há seis meses. Desempregada e criando quatro filhos de 6 a 13 anos, ela não pode mais comprar gás liquefeito de petróleo engarrafado, que é o combustível de cozinha mais usado no Brasil.

“Ficou muito caro. Os preços dos alimentos, os preços da eletricidade, tudo subiu. Gás de cozinha é agora algo que só podemos comprar se tivermos algum dinheiro sobrando”, disse ela à EarthBeat.

O corpo de Oliveira traz as marcas dessa mudança. Ela queimou as mãos e os braços várias vezes enquanto alimentava o fogo com gravetos. Embora cozinhe no quintal, ela suspeita que inalar a fumaça esteja afetando sua saúde.

“Tenho me sentido mais cansada desde então. Tenho pressão alta e acho que a fumaça está tendo um impacto sobre isso”, disse ela.

A situação de Oliveira está se tornando cada vez mais comum no Brasil, à medida que a combinação de alto desemprego, aumento da inflação e preços mais altos para os combustíveis derivados do petróleo tem levado milhões de pessoas a trocar o gás pela madeira e outros combustíveis sólidos para cozinhar. Mais de um quarto dos lares brasileiros usa lenha para cozinhar, com consequências para a qualidade do ar e a saúde das famílias.

O problema afeta residentes de áreas rurais e de bairros urbanos populosos e de baixa renda. Pessoas no campo e em cidades pequenas tendem a ter mais espaço ao ar livre onde um incêndio representa menos perigo, mas nas favelas de grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, as casas minúsculas e apertadas – que muitas vezes se parecem mais com barracas de madeira – estão amontoados juntos, e os fogões e fogueiras improvisados ​​representam grandes riscos.

O preço médio de um cilindro de 28 libras de gás LP subiu de 69 reais em janeiro de 2019 para 100 em outubro de 2021. O preço em dólares – cerca de US $ 18 – tem se mantido bastante estável, mas porque o valor do real caiu durante aquele tempo, a diferença é substancial para os brasileiros. Em algumas regiões do país, essa quantidade de gás pode custar até 135 reais, o equivalente a cerca de US $ 24.

De acordo com a estatal Empresa de Pesquisa Energética , o uso de madeira como combustível aumentou 1,8% entre 2019 e 2020. A madeira ultrapassou o gás de cozinha como a segunda fonte mais importante de energia doméstica no Brasil, depois da eletricidade. Cerca de 26,1% das famílias cozinhavam com lenha no ano passado, em comparação com 24,4% para o gás, e analistas acreditam que a diferença aumentou em 2021.

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Neilma da Cruz Silva e dois de seus filhos estão sentados em uma cama em sua pequena casa de madeira no Complexo do Alemão, um complexo de bairros de baixa renda conhecido como favelas, abril de 2020 no Rio de Janeiro. (Bruno Itan)

Neilma da Cruz Silva e dois de seus filhos estão sentados em uma cama em sua pequena casa de madeira no Complexo do Alemão, um complexo de bairros de baixa renda conhecido como favelas, abril de 2020 no Rio de Janeiro. Ela e o marido, pais de quatro crianças com menos de 10 anos, estiveram desempregados durante a pandemia de COVID-19 e frequentemente não têm comida suficiente para a família. (Bruno Itan)

Cozinhar com lenha é um grande retrocesso para os brasileiros. Nas últimas décadas, o aumento da urbanização e o maior desenvolvimento de infraestrutura permitiram que a maioria das famílias abandonasse os fogões a lenha e comprassem fogões modernos a gás LP.

Em 2017, porém, a estatal petrolífera Petrobras começou a vincular os preços dos combustíveis aos preços internacionais, que oscilam, segundo o bispo José Reginaldo Andrietta, de Jales, no estado de São Paulo, que lidera a Comissão Pastoral dos Trabalhadores dos Bispos do Brasil. conferência. O preço do gás de cozinha aumentou continuamente desde então.

“Embora possamos certamente questionar o uso de combustíveis baseados em carbono, devo dizer que o Brasil tem muito petróleo, mas o governo decidiu deixar corporações multinacionais assumirem o controle. Atrelar os preços da Petrobras ao dólar é um grande problema, “Andrietta disse.

Ele gostaria de ver o governo não só desvincular os preços da Petrobras do mercado internacional, mas também subsidiar os combustíveis para os brasileiros mais pobres.

“Os ricos e os pobres não podem pagar o mesmo, já que o impacto para os pobres é muito maior. Igualdade não é isso. É injusto”, disse.

Desde 2013, Adriana Gioda é uma das poucas cientistas que  estuda os impactos ambientais e de saúde  do cozimento com lenha no Brasil. Um professor de química da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Gioda disse que uma pesquisa patrocinada pelo governo que poderia fornecer informações para melhor compreender o impacto do uso atual de combustíveis para cozinhar foi adiada.

“No entanto, é perceptível que o uso da madeira está crescendo”, disse ela à EarthBeat.

Isso está aumentando a poluição do ar interno para famílias forçadas a cozinhar com lenha.

Um problema importante, disse Gioda, é que as pessoas não usam para cozinhar lenha certificada como proveniente de florestas manejadas de forma sustentável, mas removem entulhos de construção e restos de madeira nas cidades e áreas rurais.

“A queima de madeira não certificada resulta em duas a três vezes mais emissões [de gases de efeito estufa] do que o uso de gás de cozinha”, disse Gioda.

“Como a madeira certificada é proveniente de reflorestamento, em tese sua emissão de dióxido de carbono, quando queimada, equivale ao dióxido de carbono absorvido durante o crescimento da planta”, disse Gioda. “Madeira não certificada não tem essa compensação”.

Queimar restos de madeira pintada pode tornar a situação ainda mais perigosa ao liberar substâncias tóxicas junto com a fumaça.

“Se um pedaço de madeira foi pintado com tinta à base de chumbo décadas atrás, essa substância agora será lançada na atmosfera”, acrescentou Gioda.

Para aumentar o perigo, os fogões a lenha comumente usados ​​muitas vezes não queimam lenha de maneira eficiente e não têm chaminés adequadas, por isso não têm ventilação adequada.

“Fogões improvisados ​​não queimam os combustíveis sólidos completamente. A combustão incompleta libera mais partículas no ar”, com um impacto equivalente a fumar cinco ou seis maços de cigarros por dia, disse Gioda.

“As mulheres são especialmente afetadas, porque costumam cozinhar em casa, e as crianças, porque costumam ficar perto das mães”, disse.

A poluição interna pode agravar alergias e outros problemas respiratórios, e as consequências de longo prazo da exposição podem ser ainda mais sérias.

Estudos no Brasil mostraram que o uso de lenha resultou em maiores concentrações de partículas transportadas pelo ar e outros poluentes do que o cozimento com gás, com maior risco de problemas respiratórios e certos tipos de câncer. Também afeta a qualidade do ar externo, aumentando o impacto das centenas de incêndios florestais que ocorreram nos últimos meses.

“Particularmente em nível local, a qualidade do ar certamente piora”, disse Gioda.

Neilma da Cruz Silva usa sucata de madeira como combustível para cozinhar em abril de 2020, em um bairro de baixa renda do Rio de Janeiro. (Bruno Itan)

Neilma da Cruz Silva usa sucata de madeira como combustível para cozinhar em abril de 2020, em um bairro de baixa renda do Rio de Janeiro. (Bruno Itan)

A mudança para a madeira também aumenta o risco de queimaduras e outros acidentes, principalmente entre as crianças, disse pe. Antônio Naves, que trabalha no Jardim Elba, um bairro pobre de São Paulo.

“Às vezes, as chamas ficam fora de controle e a casa inteira pega fogo”, disse ele à EarthBeat.

Naves disse que não só os moradores das favelas cozinham em fogões improvisados, mas também pessoas sem casa.

“Frequentemente vemos pessoas morando embaixo das pontes e cozinhando em fogueiras – quando conseguem um pouco de comida”, disse ele.

Fr. franciscano Sérgio Görgen, um ativista de longa data do Movimento dos Pequenos Agricultores do Brasil, disse que a situação pode piorar ainda mais, por causa de uma crise iminente na produção de madeira certificada.

“O preço da madeira está subindo no interior do Brasil, principalmente agora que mais gente está demandando por causa do alto preço do gás de cozinha”, disse. “Há risco iminente de crise de abastecimento de madeira”.

Görgen explica que a área plantada com eucalipto, uma das principais fontes de madeira certificada do Brasil, está sendo reduzida, pois os agricultores preferem plantar soja. Enquanto isso, a maior parte da madeira produzida legalmente no país é utilizada pela indústria de papel ou exportada para a China. Isso, disse ele, pode resultar no aumento do uso de madeira de árvores nativas como combustível para cozinhar.

Em outubro, o Congresso Brasileiro aprovou um sistema de vouchers para subsidiar o gás de cozinha para famílias de baixa renda inscritas em programas sociais do governo. Para uma família de cinco pessoas que usa um cilindro de gás a cada seis semanas, isso reduziria o custo do gás de cozinha para cerca de 83 reais, ou US $ 15, por mês.

Cerca de 27,4 milhões de brasileiros vivem em famílias que ganham pouco mais de US $ 230 por mês, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas, sem fins lucrativos. Mesmo com o subsídio, essas famílias gastariam mais de 6% de sua renda com gás de cozinha.

Gioda, o pesquisador da Pontifícia Universidade Católica, disse que o subsídio é provavelmente insuficiente, visto que os preços dos alimentos aumentaram 40% e o desemprego entre os pobres 8,5% desde o início da pandemia do COVID-19.

Se o programa de vouchers não for bem elaborado, disse ela, em vez de diminuir o uso de madeira como combustível, ele poderia criar um mercado cinza para o gás LP, com as pessoas comprando gás com vouchers e depois revendendo-o para esticar sua renda limitada.

“O número de desempregados é muito alto”, disse Gioda. “Não adianta pegar um botijão de gás se você não tem comida.”

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