RESUMO DA NOTÍCIA
- O que aconteceu: o Banco do Brasil ampliou provisões e reduziu sua projeção de lucro, enquanto o Bradesco manteve a recuperação dos resultados.
- Quem pode ser afetado: acionistas dos dois bancos, produtores rurais, empresas ligadas à pecuária e clientes expostos ao crédito.
- Por que isso importa: inadimplência, custo do crédito e restrições às exportações podem influenciar lucros, dividendos e a percepção de risco das ações.
O Banco do Brasil (BBAS3) e o Bradesco (BBDC4) chegam ao segundo semestre de 2026 enfrentando desafios diferentes. No BB, a preocupação está concentrada na qualidade do crédito, especialmente no agronegócio. No Bradesco, o mercado acompanha se a recuperação iniciada nos últimos trimestres continuará mesmo diante de um ambiente econômico mais exigente.
Os riscos precisam ser avaliados separadamente. No Banco do Brasil, a deterioração do crédito já aparece nos números e nas projeções da administração. No Bradesco, os resultados ainda mostram avanço, mas alguns indicadores antecedentes de inadimplência exigem atenção.
Banco do Brasil sente o aumento do custo do crédito
O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 53,5% em relação ao mesmo período de 2025. O custo do crédito alcançou R$ 18,9 bilhões, alta anual de 85,8%.
A inadimplência acima de 90 dias ficou em 5,05%, ante 3,63% um ano antes. Ao mesmo tempo, o índice de cobertura, que mostra a relação entre provisões e créditos atrasados, terminou março em 158,4%.
A carteira de agronegócios chegou a R$ 418,4 bilhões, com crescimento de 3% em 12 meses. As operações vinculadas ao programa BB Regulariza Agro somavam R$ 37,9 bilhões no encerramento do trimestre.
Diante da continuidade das pressões, o banco reduziu a projeção de lucro líquido ajustado para 2026. A faixa passou de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões.
A estimativa para o custo do crédito também aumentou, de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões para R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões. Os números constam na Análise do Desempenho do Banco do Brasil no 1T26.
Pecuária representa nova frente de atenção para BBAS3
Dentro da carteira rural do Banco do Brasil, a bovinocultura representava R$ 84,9 bilhões em março de 2026, equivalentes a 20,3% da carteira de agronegócios. Somente as operações relacionadas à produção de carne somavam R$ 63,3 bilhões.
Essa exposição ganhou importância diante das restrições enfrentadas pela carne bovina brasileira no mercado internacional.
A China estabeleceu para o Brasil uma cota de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas em 2026. Os volumes que ultrapassarem esse limite ficam sujeitos a uma tarifa adicional de 55%.
A Associação Brasileira de Frigoríficos estima que a cota tenha sido praticamente preenchida com os embarques realizados até junho. Segundo a entidade, a China respondeu por 48,5% das receitas brasileiras com exportações de carnes e subprodutos bovinos no primeiro semestre. A concentração aumenta a relevância de qualquer redução nas compras chinesas. A Abrafrigo detalhou os números em levantamento divulgado em julho.
Outro ponto de atenção é a decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026. A medida está relacionada às regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção.
O governo brasileiro tenta reverter a decisão. Portanto, a suspensão ainda pode ser alterada antes de entrar em vigor. Se for mantida, poderá atingir carne bovina, aves, ovos e outros produtos de origem animal.
Restrição às exportações não significa perda automática para o banco
A relação entre as barreiras comerciais e os resultados do Banco do Brasil não é direta.
O banco não informa publicamente quanto da carteira de bovinocultura pertence a produtores ou empresas diretamente dependentes das vendas para China e União Europeia. Também existem diferenças de garantias, seguros, capacidade financeira e exposição ao mercado interno entre os clientes.
Ainda assim, a redução das exportações pode pressionar preços pagos aos produtores, diminuir a geração de caixa da cadeia pecuária e aumentar a necessidade de renegociações. Parte da produção também pode ser direcionada ao mercado interno, ampliando temporariamente a oferta e pressionando preços.
Para o consumidor, esse movimento poderia representar algum alívio no preço da carne no curto prazo. Para produtores e frigoríficos, porém, margens menores podem aumentar o risco financeiro.
O efeito sobre BBAS3 dependerá da intensidade e da duração dessas mudanças, além da qualidade das garantias contratadas pelo banco.
Bradesco mantém recuperação, mas crédito continua no radar
O cenário do Bradesco é diferente. O banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 16,1% em 12 meses. Foi o nono trimestre consecutivo de evolução do resultado, segundo a instituição.
A rentabilidade recorrente sobre o patrimônio, medida pelo ROAE trimestral, atingiu 15,8%. A carteira de crédito expandida somava R$ 1,09 trilhão, com crescimento anual de 8,4%.
A inadimplência acima de 90 dias ficou em 3,7%, abaixo dos 3,8% observados em dezembro de 2025. Entretanto, os atrasos entre 15 e 90 dias avançaram de 3,45% para 3,66% no trimestre.
Esse indicador merece acompanhamento porque pode antecipar uma piora futura nos atrasos mais longos, embora parte dos clientes consiga regularizar os pagamentos antes de ultrapassar 90 dias.
O Bradesco afirma que adotou uma originação de crédito mais conservadora e aumentou a participação de operações com garantias. Os dados estão no informativo trimestral do Bradesco.
Seguros ajudam a sustentar o resultado do Bradesco
O grupo segurador continua sendo uma importante fonte de diversificação para o Bradesco. No primeiro trimestre, a operação registrou lucro líquido de R$ 2,8 bilhões, avanço anual de 13%.
Somente a Bradsaúde obteve lucro de R$ 1,3 bilhão, com retorno sobre o patrimônio de 24,8% em 12 meses.
Esse desempenho ajuda a reduzir a dependência do resultado bancário tradicional. Mesmo assim, não elimina os riscos de uma eventual deterioração do crédito para pessoas físicas, pequenas empresas e clientes do varejo.
| Ativo | O que está no radar | Por que importa | Ponto de atenção |
|---|---|---|---|
| BBAS3 | Inadimplência rural, custo do crédito e cadeia da carne | O agronegócio representa uma parcela relevante da carteira | Restrições externas não geram perdas automáticas, mas podem pressionar o caixa dos produtores |
| BBDC4 | Continuidade da recuperação e atrasos entre 15 e 90 dias | O banco voltou a apresentar crescimento do lucro e da rentabilidade | Uma desaceleração econômica pode afetar varejo, pessoas físicas e pequenas empresas |
Dividendos dependem da recuperação dos lucros
A pressão sobre o resultado do Banco do Brasil já apareceu na remuneração contabilizada aos acionistas. Os dividendos e juros sobre capital próprio somaram R$ 866 milhões no primeiro trimestre de 2026, ante R$ 2,76 bilhões no mesmo período do ano anterior.
A comparação entre trimestres deve ser feita com cautela porque datas de aprovação e pagamento podem provocar oscilações. Ainda assim, uma recuperação mais consistente dos proventos depende da evolução do lucro, do custo do crédito e das necessidades de capital do banco.
No Bradesco, a melhora dos resultados cria uma base mais favorável, mas os pagamentos futuros continuarão sujeitos às decisões da administração e às condições financeiras da instituição.
O dividend yield passado não garante os proventos dos próximos períodos.
Preço baixo não elimina o risco
Uma ação negociada abaixo de sua média histórica de preço sobre valor patrimonial não está necessariamente barata.
Esse desconto pode refletir menor rentabilidade, aumento da inadimplência, projeções de lucro mais fracas ou riscos que ainda não foram totalmente absorvidos pelos resultados.
No Banco do Brasil, o principal teste será comprovar que o custo do crédito pode recuar e que a carteira rural está entrando em estabilização. No Bradesco, será necessário mostrar que o crescimento do lucro pode continuar sem uma deterioração relevante da qualidade dos empréstimos.
O QUE OBSERVAR AGORA
Principal ponto de atenção: a evolução da inadimplência e do custo do crédito, especialmente no agronegócio do Banco do Brasil e nas carteiras de varejo do Bradesco.
Risco ou limitação: as restrições à carne brasileira podem pressionar a cadeia pecuária, mas não existe evidência de que todo esse impacto será transferido diretamente para a carteira do BB. No Bradesco, a recuperação pode perder ritmo se o ambiente econômico piorar.
Próximo dado importante: o Bradesco divulgará os resultados do segundo trimestre em 5 de agosto de 2026, após o fechamento do mercado, conforme a agenda de resultados da instituição. O Banco do Brasil publicará seu balanço em 12 de agosto de 2026, segundo o calendário de Relações com Investidores.
Os próximos balanços deverão mostrar se o Banco do Brasil conseguiu controlar a deterioração do crédito rural e se o Bradesco manteve a trajetória de recuperação. Até lá, avaliações baseadas apenas na queda das ações, nos múltiplos históricos ou no dividend yield oferecem uma visão incompleta dos riscos.
Aviso: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e jornalístico. Não representa recomendação de compra, venda ou manutenção de ações, FIIs, títulos públicos, títulos privados, criptomoedas ou qualquer outro ativo financeiro. Antes de investir, avalie seu perfil, seus objetivos, os riscos envolvidos e consulte profissionais autorizados, se necessário.