Economia

Setor de serviços mostra resultados positivos em novembro

serviços

Com alta de 2,4% em relação a outubro, o volume do setor de serviços surpreendeu positivamente em novembro. As boas notícias, no entanto, devem ser vistas com cautela, apontam economistas. Além de ter sido precedida por quedas nos dois meses anteriores, a expansão de novembro foi impulsionada por segmentos que apresentaram desempenhos voláteis.

Para 2022, pelo menos no curto prazo, variante ômicron, inflação, lenta recuperação do emprego e incerteza política estão entre os fatores que podem atuar como “ventos contrários”, apesar da retomada gradual dos serviços prestados às famílias e do novo programa de transferência de renda Auxílio Brasil.

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que o volume de serviços de quatro dos cinco grandes grupos aumentou em novembro em relação a outubro (com ajuste sazonal), abrindo espaço para o dobro crescimento de -dígitos em 2021, o que seria recorde no resultado anual da série de indicadores, iniciada em 2012.

A alta dos serviços em novembro ficou acima da mediana de crescimento de 0,2% apontada pelo Valor Data em levantamento de projeções com 26 consultorias e instituições financeiras, superando inclusive o teto das estimativas de 1,5%.

Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), diz que novembro certamente trouxe um resultado positivo, mas que precisa ser visto com “certa cautela”. A análise da composição do indicador não parece indicar uma revisão de tendência, diz ele.

Em setembro e outubro, a PMS apontou queda no volume de serviços de 0,6% e 1,6%, respectivamente, na variação mensal dessazonalizada. Para Tobler, não está totalmente claro o que impulsionou o negócio de “serviços de tecnologia da informação” a um nível tão alto em novembro. “Acredito que podemos voltar a esse cenário mais frágil a partir de dezembro.”

Em nota divulgada pela XP, o economista Rodolfo Margato também destaca a alta dos serviços de tecnologia da informação, que cresceram 10,7% em novembro em relação a outubro, na série com ajuste sazonal. Esse desempenho foi uma das explicações para a diferença entre a estimativa de alta de 0,2% esperada pelo XP para o PMS de novembro e o resultado da pesquisa divulgada pelo IBGE. Outra área que ficou acima das expectativas, indica, foi “serviços de transporte aéreo”, com alta de 7,6% em novembro.

O Sr. Margato ressalta, porém, que essas atividades não têm apresentado crescimento contínuo. A expansão da tecnologia da informação em novembro seguiu contração de 0,4% em outubro e queda de 0,1% em setembro. No transporte aéreo, a alta em novembro veio após contração acumulada de quase 14% nos dois meses anteriores. Os resultados do PMS de novembro foram claramente positivos, destaca Margato. Ele acredita, no entanto, que o ritmo de crescimento do setor deve ser visto com cautela, “já que parte relevante da surpresa de alta com os dados daquele mês veio de segmentos voláteis na comparação mensal”.

Mirela Hirakawa, economista da AZ Quest, também destaca os componentes voláteis no desempenho dos serviços em novembro. Para ela, em dezembro o indicador ainda pode apresentar uma evolução positiva, com o resultado de novembro tendo o efeito de conter revisões adicionais em baixa para o PIB de 2021. A AZ Quest projeta atualmente um aumento de 11% no volume de serviços por PMS em 2021 e, em relação ao PIB, mantém um crescimento de 4,4%.

A Sra. Hirakawa ressalta que a pesquisa de novembro ainda mostra recuperação nos serviços prestados às famílias. São atividades que incluem hospedagem e alimentação, explica ela, que são importantes para o PIB e que tiveram sua retomada favorecida pela maior mobilidade social, com o avanço da vacinação. Há, no entanto, diz ela, apreensão adicional no curto prazo devido ao aumento de casos de Covid-19, pela variante ômicron. O que se espera, diz ela, é um impacto nos serviços não apenas por novas medidas restritivas à circulação, mas também pela escassez de profissionais de atendimento, com aumento da contaminação.

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, também tem o ômicron no radar para 2022. A circulação de pessoas é um fator importante para a retomada dos serviços, diz ele e, por isso, ainda espera um desempenho marginalmente positivo para o setor para Dezembro. Com o desempenho do PMS de novembro, a Ativa revisou sua previsão de crescimento do PIB para 2021 de 4,4% para 4,6%.

Mesmo que se espere um impacto de uma nova onda de Covid-19, no entanto, ressalta Hirakawa, a expectativa é de que os efeitos sejam cada vez mais graduais devido às adaptações nos hábitos de vida e aprendizagem por parte dos diversos níveis de governo. Recorda que em abril de 2020, sob o impacto da primeira vaga, a área da hotelaria e restauração caiu 45,2%. Em março do ano passado, já havia queda menor, com contração de 29,6%, na mesma comparação.

Além do avanço da vacinação contra a Covid-19, o Goldman Sachs também espera que o programa de repasse Auxílio Brasil também ajude na continuidade da recuperação dos serviços em 2022. No curto prazo, porém, o economista-chefe do banco, Alberto Ramos, diz que, além do aumento dos casos de Covid-19, devemos pensar também na inflação alta, nas condições financeiras domésticas mais apertadas, no aumento do ruído e da incerteza política e na deterioração da confiança dos consumidores e empresários como “ventos contrários”.

Na PMS de novembro de 2021, os serviços prestados às famílias apresentaram alta de 2,8% em relação a outubro, com a oitava taxa positiva consecutiva nessa comparação, acumulando crescimento de 60,4%. Mas, mesmo com esse aumento acumulado, o segmento em novembro de 2021 ainda estava em patamar 11,8% abaixo de fevereiro de 2020, antes da pandemia.

A retomada dos serviços prestados às famílias, como restaurantes por exemplo, aos níveis anteriores à pandemia depende não só de fatores de saúde relacionados à Covid-19, mas também do contexto macroeconômico, como renda e emprego, destacou Rodrigo Lobo, economista do IBGE e gerente do PMS.

O Sr. Lobo reconheceu que, assim como a pandemia foi um novo fator que afetou os negócios do setor, o contexto macroeconômico de fevereiro de 2020 foi diferente do observado em novembro de 2021. Na prática, o ambiente econômico afeta o poder de compra da população, ele notado. O efeito da variante omicron nos serviços, diz ele, só será conhecido efetivamente em março, quando será anunciada a pesquisa de janeiro de 2022.

Voltar ao Topo