Energia

Santa Catarina busca parcerias para viabilizar terminar de GNL no Estado

O estado de Santa Catarina hoje tem grandes polos industriais e de agronegócio sem atendimento eficiente da rede de gás natural, como na região de Chapecó, e a SCGás vem há algum tempo buscando maneiras de ampliar sua capilaridade, mas a limitação do volume fornecido pelo Gasbol, em cerca de 2 milhões de metros cúbicos por dia, não permite muitos avanços. Preocupado com este cenário, o presidente da SCGás, Cósme Polêse, é um dos que capitaneiam a defesa do uso do Gás Natural Liquefeito como forma de expandir a distribuição e o atendimento do estado, ressaltando a importância e atratividade de um terminal de GNL na região. Polêse conta que o projeto é antigo, foi desenhado pela Petrobrás, mas a diretoria da época, liderada por José Sergio Gabrielli – com ligações políticas na Bahia –, acabou levando o empreendimento para o estado nordestino, mas os mesmos fatores de atração para o investimento em Santa Catarina continuam de pé. “Da mesma maneira que hoje ele tem viabilidade econômica na Bahia, também terá aqui. Muito mais talvez”, afirma, reconhecendo que no cenário atual dificilmente o projeto poderá contar com a Petrobrás na liderança, necessitando de outros investidores. “Mas ela pode ser parceira, já que é a operadora do Gasbol, que precisa estar conectado ao terminal”, diz.

Como a SCGás avalia o potencial do GNL para a expansão do mercado de gás no Brasil?

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, o GNL é uma ferramenta para alavancar o desenvolvimento de determinadas regiões. Só temos 3 terminais de GNL no País, ainda subutilizados. Então o modelo precisa ser aprofundado, revisto. Acredito que num futuro não muito distante o Brasil deve também produzir GNL. Quer dizer, já produzimos em Paulínia, mas é fruto do gás da Bolívia. Então num futuro não muito distante acredito que teremos essa produção própria.

E como pode ser o aproveitamento em Santa Catarina?

Em Santa Catarina temos o Gasbol, que traz gás da Bolívia, mas é telescópico. Tem um diâmetro de 12 polegadas até o Paraná, depois vem com 20 polegadas até o nosso estado, segue com 18 polegadas até o Rio Grande do Sul, e de lá parte para o polo petroquímico de Porto Alegre com 16 polegadas. Sem dúvida é uma infraestrutura importantíssima para um período da nossa história, que alavancou o desenvolvimento da região por onde ela passa, mas que precisa ser expandida.

Apenas em Santa Catarina, com os 20 anos da SCGás, estamos comercializando quase 2 milhões de metros cúbicos gás por dia, sendo que não temos termelétrica aqui. A nossa rede, que ultrapassa mil quilômetros, está no entorno desse eixo do Gasbol. E atendemos a uma capilaridade da indústria praticamente colada no gasoduto. É o que eu chamo de jabuticaba. Esse espaço geográfico está atendido. A não ser que houvesse uma termelétrica, não precisaríamos do GNL para essa área, mas para interiorizar o gás, para incentivar o desenvolvimento de diversas regiões de Santa Catarina – o que é uma política de interesse do estado –, precisaremos. E a SCGás como concessionária tem que estar atenta a isso. O modelo comum é levar o gasoduto onde tem demanda, mas eu penso o contrário. É preciso levar o gás para fomentar a demanda.

E quais são os polos que poderiam aproveitar esse gás no estado?

A região de Chapecó, por exemplo, é um polo de agronegócio, sendo que o estado de santa Catarina é referência mundial em carnes de aves e suínos. E toda essa cadeia está sem o atendimento de gás natural. Não conseguimos chegar a essa região por conta de a infraestrutura do gasoduto estar no litoral. Como fazer um gasoduto de 400 km daqui até essa região, numa equação que não tem viabilidade econômica? A alternativa que surge, permitindo o atendimento de diversos polos, é com o GNL. Com ele, tem 600 vezes menos volume nesse transporte, que seria feito pelo modal rodoviário, transportando contêineres a partir de um porto. Um contêiner de GNL leva 27 mil metros cúbicos de gás. Poderíamos desenvolver redes isoladas, porém não com o modal de gasodutos, até que a demanda justifique a construção desses gasodutos.

O ponto principal é termos um terminal, que não precisa de volume muito grande, que permita essa estruturação. Atendendo o Gasbol, que tem uma capacidade de transporte limitada – então isso poderia ampliar a capacidade dele também. Além disso, um terminal de GNL na costa catarinense poderia atender aos dois estados vizinhos ficam no raio econômico para o transporte rodoviário. Se traçar um raio de 500km, 600 km, ele pode atender a região do interior gaúcho, catarinense e paranaense.

Vocês estão conversando com as distribuidoras desses estados?

Sim e cada uma está fazendo seu dever de casa, com a possibilidade de cada estado ter seu terminal. O Rio Grande do Sul tem um em avaliação, o Porto do Paranaguá também. E nós temos nossos estudos. Estamos colocando Santa Catarina porque seria o mais adequado pela geografia. Daqui temos facilidade para alcançar portos próximos dos outros estados, já consagrados na movimentação de cargas. Essa equação teria que ter uma construção tripartite, também se beneficiando a questão tributária de cada um deles. Poderia atender pequenas cidades e outras industrias. Estamos iniciando um projeto dessa natureza e pretendemos ampliar isso.

O que é o projeto que estão desenvolvendo exatamente? A construção do terminal?

Nosso interesse é que o poder público faça uma chamada para a construção do terminal e estamos conversando com players que podem ter interesse. Mas só o terminal não adianta. Precisa de toda uma infraestrutura para distribuir esse gás e atender às diferentes regiões. A SCGás tem interesse em comprar a capacidade desse terminal para atender ao estado, que tem uma peculiaridade interessante, com ilhas de desenvolvimento muito singulares, pouco ou nada atendidas pela distribuição do gás.

Qual volume a SCGás teria interesse em comprar de um possível terminal?

Santa Catarina tem um contrato de 2 milhões de metros cúbicos de gás atualmente. Estamos perto do limite. O estado tem outro volume similar, de mais 2 milhões, que poderiam ser atendidos. Se colocar um terminal, para ser econômico, precisaria ter uma capacidade inicial de 6 a 7 milhões de metros cúbicos/dia. Ele tem que atender ao mercado não térmico e eventualmente também ao térmico, tendo algo que sirva de âncora. Pensamos então num terminal conectado ao Gasbol. Poderia ter uma térmica acoplada ao terminal, que daria equação de mercado para a operação dele, além de um volume não térmico de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. É a equação regional que precisa ser estudada.

Existe um projeto de terminal da Bolognese no Rio Grande do Sul. Não afeta os planos de Santa Catarina?

Desejamos que o empreendimento de lá efetivamente aconteça. Embora esteja a 400 km do polo petroquímico de Triunfo, em termos de gasodutos, é um projeto que tende a forçar investimentos para a ampliação da oferta de gás em outra região, possibilitando que esse gasoduto se conecte na ponta do Gasbol e interiorize o gás, passando pelo interior catarinense também.

O Gasbol não está no limite?

Tem possiblidade de repotencializar alguns pontos. No Sul, isso é importante. É provável que tenha alguma disponibilidade, não muito grande. O nosso contrato está para vencer em 2020, mas naturalmente vamos renovar o contrato, em outras bases, outros volumes e outros prazos. Mas ficar com essa única fonte de suprimento não é uma coisa inteligente. Precisamos de outras. Temos alternativas como o terminal de GNL, que garante uma maior segurança operacional do sistema e uma ferramenta que alavanca o desenvolvimento e a interiorização do gás.

Quais parcerias foram formadas para ampliar o uso do GNL em Santa Catarina?

O estado de Santa Catarina firmou três protocolos de intenções com parceiros que estão estudando a viabilidade de um terminal. Mas estamos conversando também com outros para estudar, fazer análise e oferecer condições dos locais para vermos se conseguimos estruturar o negócio. Se conseguirmos viabilizar esse projeto, ele capta mercado, por si só, tanto no rio Grande do Sul quanto no Paraná, e alavanca essa distribuição do GNL às regiões hoje não atendidas. Além disso, fomenta outras áreas. Não temos, por exemplo, capacidade de levantar termelétricas novas no Sul por conta da capacidade limitada do Gasbol. Então no cenário macro há seguramente espaço para a implantação de um polo dessa natureza.

As petroleiras poderiam entrar como parceiras?

Posso te dizer que o projeto de terminal de GNL que foi para a Bahia, que a Petrobrás implantou lá, começou a ser discutido aqui, na baía da Babitonga, na região norte do estado de Santa Catarina, onde tem o Porto de São Francisco. Havia todo um estudo, um desenho para que esse terminal acontecesse, por iniciativa da Petrobrás, mas, por decisão da diretoria de então, do Gabrielli, o terminal que era para cá foi para a Bahia. Então não são ideias de agora. Isso já foi iniciado pela Petrobrás, que estudou isso, fez o projeto inicial, houve toda a expectativa, mas ele acabou indo para lá. Então da mesma maneira que hoje ele tem viabilidade econômica na Bahia, também terá aqui. Muito mais talvez.

Mas agora dificilmente a Petrobrás poderia participar…

Esse projeto era uma ideia da Petrobrás naqueles tempos, mas hoje, pela realidade que vivemos, não vejo possibilidade de tê-la como mentora, idealizadora e iniciadora de um projeto desse. Mas ela pode ser parceira, já que é a operadora do Gasbol, que precisa estar conectado ao terminal. A partir da repotencialização do gasoduto, com a construção de alças e estações compressoras, poderia ampliar a capacidade dele, com poucos investimentos.

 

Fonte: Petronotícias

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