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Por que a Petrobras deve expandir os desinvestimentos downstream

A Petrobras do Brasil anunciou que vai vender sua participação restante de 37,5% na varejista de combustíveis BR Distribuidora, potencialmente levantando 8-10 bilhões de reais (US $ 1,58 bilhões-1,97 bilhões), de acordo com as expectativas do mercado.

A primeira operação ocorreu em julho de 2019 na Bolsa de Valores de São Paulo, com captação de R $ 9,6 bilhões.

Luís Henrique Sanches, diretor da consultoria de mercado de combustíveis LH Sanches Treinamento e Consultoria, acredita que a transação será boa para a BR, mas ruim para a petroleira federal, do ponto de vista estratégico.

“Se amanhã a BR for comprada por outra petroleira e decidir não comprar petróleo da Petrobras, o que fará?” ele pergunta nesta entrevista .

Por outro lado, ele reconhece que a estatal está contando com desinvestimentos para se recuperar financeiramente e desenvolver suas reservas do pré-sal antes que elas “virem pó” e destaca o momento da venda.

Sanches também fala sobre o mercado de distribuição do Brasil, a política de preços de combustíveis da Petrobras e seus desinvestimentos de refino, que ele espera que sejam ampliados com usinas adicionais.

entrevistador : A Petrobras está saindo definitivamente da BR. Quais são os impactos?

Sanches: Estrategicamente, isso é bom para a BR, pois será ainda mais livre dos laços do estado brasileiro, mas ruim para a Petrobras. As principais petroleiras do mundo são verticalizadas, pois permite ganhos em mais de uma área [por exemplo, exploração e produção] e menos em outra [refino e comercialização], dependendo do tempo. A Petrobras não tem mais capacidade de refinar tudo o que produz. E se amanhã a BR for comprada por outra petroleira e decidir não comprar petróleo da Petrobras, o que fará? Vai exportar ainda mais? O mercado brasileiro tem margens muito boas, principalmente no refino, pois praticamos preços de paridade internacional. Se não puder vender no Brasil, terá que vender com paridade de exportação, incluindo o custo de exportação. Mas a Petrobras está fazendo isso porque tem o pré-sal, uma mina de ouro com prazo de validade antes de virar pó. Portanto, ela precisa tirar todo esse petróleo enquanto ainda vale alguma coisa e vender ativos para cobrir o buraco financeiro que ainda tem.

Não tenho dúvidas de que a Petrobras vai vender as refinarias que ainda não incluiu no programa de desinvestimento. Não faria sentido manter todas as fábricas de São Paulo e Rio de Janeiro se quisermos aumentar efetivamente a concorrência. A Petrobras ainda não fez isso porque os investidores estrangeiros ainda temem uma intervenção estatal nos preços dos combustíveis. Vende refinarias de menor importância, como a RLAM [Landulpho Alves, na Bahia, comprada recentemente pela Mubadala Capital], que fica relativamente longe das demais refinarias da Petrobras. Se a Mubadala construir um gasoduto para o centro-oeste do Brasil, ele dominará a parte norte da região. Também tenho a impressão de que a RLAM atuará como uma unidade de logística para trazer petróleo e derivados do Oriente Médio. Dito isso, do ponto de vista de fluxo de caixa, a venda da BR é uma boa solução para a Petrobras.

entrevistador: Como você avalia a política de preços de combustíveis da Petrobras?

Sanches : Essa é uma questão complexa porque, hoje, a Petrobras é tratada como uma empresa privada que não tem monopólio, quando, na verdade, é uma estatal que não tem um monopólio de jure, mas tem um monopólio de fato.

entrevistador: Faz sentido para o Brasil praticar a paridade internacional mesmo sendo um país produtor de petróleo? Tem gente voltando a cozinhar com lenha devido ao aumento do preço do gás liquefeito de petróleo.

Sanches : No caso do GLP, devemos ter um voucher para quem recebe bolsa-família, por exemplo. Mas não é a Petrobras que tem que pagar por isso, porque o acionista [privado] da Petrobras não tem nada a ver com isso. Não é a empresa que deve agir para reduzir as distorções, mas o governo. Essa situação de insegurança, com uma empresa que não é estatal nem privada, porque não sabemos exatamente o que vai acontecer com o governo do dia, assusta os investidores.

entrevistador: A nomeação do general Silva e Luna [como CEO] mudará alguma coisa?

Sanches : [Ex-CEO Roberto] Castello Branco era um profissional de alta qualidade, mas cometeu alguns erros, como dizer que a greve dos caminhoneiros não era problema dele. Você não pode dizer na TV que o maior problema do seu chefe não tem nada a ver com você. Acho que Silva e Luna vai liderar melhor, mas no dia em que os acionistas perceberem que a Petrobras não está trabalhando para maximizar os resultados, vai haver um clamor geral. Você não pode servir ao presidente da república e aos acionistas ao mesmo tempo. É preciso definir uma política pública clara e segui-la. Acho que a Petrobras vai tentar ser menos cartesiana [liberal], travando os reajustes, como já está fazendo.

Nota do editor: A Petrobras anunciou na sexta-feira o primeiro reajuste do preço dos combustíveis no governo de Silva e Luna, que começou no dia 19 de abril. Os preços da gasolina foram reduzidos em 1,9% nas refinarias, em meio à recuperação do preço do petróleo.  

entrevistador: O que vai mudar com a venda das refinarias da Petrobras?

Sanches : Não vejo redução no preço dos combustíveis para o consumidor final. Que alternativa o cliente baiano terá além da RLAM? Haverá redução de preços quando houver competição, quando houver dutos ligando uma região à outra.

entrevistador: E o mercado de distribuição de combustíveis é altamente concentrado …

Sanches : Na década de 2000, a Ipiranga  foi comprada pelo Ultra , que também comprou a Texaco. A Shell se fundiu com a Esso, então hoje temos basicamente três distribuidoras que concentram 70% do mercado: BR, Ultra e Raízen. Antes que o Ultra comprasse a Texaco, um distribuidor ficava feliz em ter um Ebitda de 40 reais / m3 vendido. Hoje está acima de 120 reais / m3. Hoje, os lucros são de mais de 1,5 bilhão de reais [por ano] para esses três. Isso aumentou enormemente o valor dos distribuidores. A Petrobras deve pedir algo em torno de 8 a 10 bilhões de reais pela participação de 37,5% da BR, o que representa mais ou menos 10% do mercado brasileiro. Então a Petrobras está vendendo a BR no momento certo porque o fato do governo ter saído da BR faz o mercado pensar que não haverá mais interferência no mercado de distribuição, o que aumentou o valor das distribuidoras.

A participação da Petrobras no preço final do combustível tem sido pequena nos últimos anos, dado o aumento dos impostos. Então, mesmo quando o preço da refinaria é reduzido, fica difícil ter impacto nos preços na bomba.

entrevistador: Quem são os potenciais interessados ​​nas restantes refinarias da Petrobras à venda?

Sanches : Tanto Ultra quanto Raízen terão interesse em garantir o abastecimento de seus postos. Por isso a primeira fez uma proposta para a Refap e a Raízen para o Paraná. Talvez também a Glencore , a Vitol , que comprou alguns distribuidores locais, compre outros. A PetroChina  também comprou pequenos distribuidores no Brasil, e não descarto a possibilidade de eles comprarem refinarias aqui. Enfim, aqueles que já têm participação no varejo ou muitas reservas de petróleo, como os árabes.

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