Economia

Omicron pode atrapalhar o crescimento econômico do Brasil em 2022

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A economia brasileira pode estar prestes a passar por outra rodada de revisões para baixo por economistas. As últimas projeções para 2022 foram divulgadas na primeira quinzena de dezembro. Desde então, os dados apontam para um desempenho abaixo do esperado no quarto trimestre. Para piorar a situação, o número de contaminações por Covid-19 saltou durante a temporada de férias devido à alta transmissibilidade da variante omicron.

Leonardo Porto, economista-chefe do Citi para o Brasil, diz que o fluxo de informações é intenso e ainda precisa ser avaliado com calma. Mas existe a preocupação de que o ressurgimento da pandemia possa estender os gargalos nas cadeias de suprimentos globais. Ele também menciona que, diante das eleições deste ano, é preciso monitorar se governo e Congresso tentarão aumentar os gastos para atender mais pessoas se a Covid-19 agravar novamente os problemas sociais do país.

O Sr. Porto explica que, embora a sociedade tenha aprendido a lidar com a pandemia tomando medidas menos restritivas à mobilidade, há outros efeitos com potencial para pressionar os resultados já pouco promissores do PIB para 2022.

Leia trechos da entrevista abaixo:

Valor: A variante ômicron está mais presente no Brasil agora do que quando os economistas fizeram as projeções para 2022. Isso já estava no cenário?

Leonardo Porto: Não exatamente. O fluxo de informações é muito intenso e estamos acompanhando de perto. A primeira questão é que, se olharmos para o exterior, o número de casos está batendo recordes em todo o mundo. É difícil imaginar que no Brasil será diferente. Os casos aqui já começaram a subir rapidamente, embora ainda estejam abaixo do nosso pico. Em outras palavras, parece que continuará avançando. A vantagem é que [a variante] é menos grave e a vacinação está avançada, mas isso não está contendo as contaminações.

Valor: Há chances de que a atividade econômica despenque como vimos no início da pandemia?

Sr. Porto: O primeiro impacto que temos que analisar é na mobilidade, que ficou muito famosa lá no início da pandemia em 2020. Todo mundo decide ficar em casa e a atividade despenca. Isso foi muito forte no início da pandemia, mas desde o início do ano passado falamos de uma queda significativa no impacto que a pandemia tem na mobilidade e na atividade econômica devido ao processo de aprendizagem. Por exemplo, não precisamos parar todos os voos como aconteceu no início da pandemia. Mantemos uma certa distância, usamos máscaras e conseguimos preservar a mobilidade. Ao mesmo tempo, quem pode ficar em casa também consegue trabalhar muito melhor, o que também reduz o impacto. Portanto, o impacto no canal de mobilidade não é a principal preocupação no momento.

Valor: E qual é a principal preocupação?

Sr. Porto: Existem outros dois canais importantes que temos que olhar e que são relevantes no momento. Um é o impacto da omicron na cadeia de suprimentos, nas cadeias de produção. A variante não está só no Brasil, está em todo o mundo e batendo recordes. Isso eventualmente começa a gerar interrupções produtivas em um país ou outro. E, como a produção é globalizada, acaba nos afetando. Esse problema das cadeias produtivas está em nosso cenário há algum tempo e está demorando mais do que esperávamos. Começou com falta de chips e foi para falta de contêineres, falta de navios, falta de caminhoneiros. Economicamente, o ômicron sugere que teremos que lidar com isso ainda mais.

Valor: Isso afetará o crescimento econômico do Brasil?

Sr. Porto: A produção industrial já está sofrendo. Não por causa da mobilidade, mas com os efeitos nas cadeias de suprimentos. Eu poderia ser mais pessimista em relação ao crescimento do PIB por causa da pandemia, sim. Não por causa do canal de mobilidade, mas por causa das cadeias de suprimentos. Veja a produção industrial [dados] revelados na semana passada. Caiu pelo sexto mês consecutivo. Se você comparar a produção industrial de novembro com a de janeiro do ano passado, há uma queda de quase 8%. A nosso ver, isso não foi resultado do aperto monetário. Para nós, tudo indica falta de insumos de produção, energia aumenta. Veja a indústria automobilística. Não há carro porque não há entrada. Há um choque de oferta negativo. Isso é um agravante no cenário inflacionário, que já está em um patamar bastante desconfortável.

Valor: Então espera-se que o omicron atinja o setor com mais força do que os serviços?

Mr. Porto:O canal de mobilidade afeta mais o setor de serviços, enquanto o canal da cadeia de suprimentos afeta mais o setor industrial. Eu me sinto mais seguro falando assim porque não quero dizer que a indústria vai sofrer mais do que os serviços. Se eu dissesse, estaria dizendo que as cadeias de suprimentos serão mais importantes que os serviços, mas na verdade vai depender da gravidade [da doença]. Por exemplo, ao atingir níveis recordes de contaminação, pode desencadear várias restrições. De repente, estádios, salas de concerto, entretenimento se fecham novamente. O setor de serviços é potencialmente afetado pela pandemia e foi o mais afetado inicialmente. O que quero dizer é que houve uma melhora no aprendizado e esse impacto foi atenuado, mas não é possível dizer que a atenuação foi suficiente para dizer que agora é o setor que mais sofrerá. É justo dizer que ambos os setores são vulneráveis.

Valor: Devemos esperar revisões nas projeções do PIB brasileiro em 2022?

Sr. Porto: Além da omicron, desde dezembro já temos um ponto adicional. Estou me referindo aos dados do quarto trimestre, que saíram pior do que o esperado. A produção industrial foi divulgada na semana passada, com um resultado muito ruim, e as indicações do que aconteceu apenas no final do ano aumentam a probabilidade de vermos uma nova queda do PIB no quarto trimestre. Lembrando que o PIB já caiu dois trimestres seguidos. Nós [do Citi] temos uma projeção de 0% para o PIB do quarto trimestre, mas já temos um viés de baixa. Esta semana acompanharemos os indicadores de atendimento e varejo.

Valor: Parece o prelúdio de um PIB mais fraco este ano.

Sr. Porto: Uma eventual queda no PIB do quarto trimestre afeta a base ainda mais negativamente. O efeito de transição para este ano piora. Portanto, há um risco crescente de que o PIB de 2022 fique abaixo da nossa projeção de 0,3% [crescimento]. E o que estou falando é apenas o efeito do ano passado.

Valor: E o ômicron especificamente vai piorar o cenário ou não vai tão longe?

Sr. Porto: Quando o ômicron entra mais intensamente em 2022, começa a prejudicar a percepção de crescimento no primeiro e segundo trimestres. Seja no setor industrial ou de serviços. Então, sim, o ômicron é um elemento que prejudica ainda mais a percepção de crescimento em relação às nossas projeções de 4,5% para o ano passado e 0,3% para este ano.

Valor: As projeções divulgadas no final do ano passado já estão em revisão?

Sr. Porto: Publicaremos nosso relatório global no dia 19 de janeiro. É um momento importante em que gostamos de consolidar o cenário. Por enquanto, continuamos com as projeções de +0,3% para o PIB deste ano, inflação de 4,7% e câmbio em R$ 5,60 por dólar no final do ano. Para a Selic, a previsão ainda é de que o ciclo de aperto termine em 11%, mas já colocamos um viés de alta nesse número.

Valor: Você disse que está observando os impactos do omicron no canal de mobilidade e nas cadeias de suprimentos. Que outro campo o ressurgimento da pandemia pode afetar?

Mr. Porto:Também pode haver um impacto nas reações da política fiscal, que é extremamente importante monitorar. É um ponto crítico e, por se tratar de ano eleitoral, pode ser ainda mais sensível. O governo negociou um teto de gastos com precatórios, abriu espaço para gastos e já criou o Auxílio Brasil. Mas quando você olha para a perspectiva das pessoas que ainda não encontraram emprego, e a taxa de desemprego ainda está um pouco acima do nível pré-pandemia, fica ainda pior. Em geral, são pessoas sem rede de segurança, no mercado informal. Isso aumenta o argumento de que o governo e o Congresso podem ser sensibilizados para aumentar o contingente de pessoas que recebem a ajuda. Precisamos observar como isso se desenrola. Por enquanto, não há nada, mas você tem que assistir.

Valor: Então, voltando à questão fiscal. Mas qual é o risco mais concreto?

Sr. Porto: Se isso se concretizar, acabará gerando um risco de ter que rediscutir o espaço fiscal. O governo pode “apertar o botão” da calamidade pública. É a válvula de segurança. Chamo a atenção para isso porque, se avançarmos nessa direção, enfraquecerá ainda mais os fundamentos fiscais. Vai prejudicar os preços dos ativos, a taxa de câmbio. O processo inflacionário passará por mais uma rodada de altas, obrigando o Banco Central a elevar ainda mais os juros. Prejudicará o crescimento por meio de reações políticas.

Valor: Esperava-se que a inflação esfriasse em 2022. Muda alguma coisa com a omicron?

Sr. Porto: O impacto da Omicron na inflação não é muito claro. Ele pode pressionar para cima ou para baixo. O principal risco do ponto de vista da inflação é uma potencial flexibilização fiscal por parte do governo. Isso levará a uma desvalorização significativa do real em meio aos altos preços das commodities, o que já está acontecendo. Isso se soma ao aumento das commodities com câmbio depreciado e eventual piora das cadeias produtivas.

Valor: O Banco Central pode ser obrigado a agir além do esperado na Selic?

Sr. Porto: Hoje, as expectativas de inflação já estão no topo da faixa do Banco Central. Ou seja, já está em um ponto extremamente desconfortável para uma autoridade monetária. O Banco Central não teria liberdade para acomodar um choque adicional. Se houver um novo choque inflacionário, terá que reagir com uma política monetária mais apertada. É diferente de quando o choque voltou em 2020 com a inflação em 2% ao ano. O Banco Central teve tempo de esperar. Agora, não há mais.

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