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O que 2021 reserva para o setor de mineração no Brasil

Espera-se que o setor de mineração brasileiro tenha um desempenho melhor no próximo ano com a recuperação da economia doméstica e global. 

Com a mineração considerada pelo governo uma atividade essencial, reduzindo as chances de paralisação da produção em caso de novos bloqueios caso o país enfrente uma segunda onda de COVID-19, as empresas devem manter a operação estável. 

Julio Nery, engenheiro de minas e diretor de sustentabilidade e assuntos regulatórios da associação de mineração do Brasil Ibram, e que trabalhou na gigante do minério de ferro Vale, entre outras empresas, conversou com o BNamericas sobre suas perspectivas para 2021.  

BNamericas: Qual a expectativa para o setor de mineração brasileiro em 2021?

Nery:  O que esperamos para o próximo ano é um clima de negócios muito mais positivo do que este ano.

Embora ainda haja dúvidas sobre o calendário para a chegada da vacina e o fim da pandemia, creio que a influência da pandemia não deve ser tão negativa para a economia em geral como foi nos primeiros meses deste ano.

Apesar da pandemia, o fato de a mineração ter sido considerada pelo governo como uma atividade essencial, indica que o segmento está apresentando um bom desempenho.

Olhando para o mercado internacional, acredito que as economias da Europa e do Japão vão se recuperar de forma relativamente rápida da recessão, e essas economias vão se juntar a uma economia já forte na China, que está passando por uma recuperação em forma de V.

No mercado interno, esperamos também uma recuperação econômica que beneficiará o setor de mineração.

BNamericas: Qual a sua visão sobre os principais minerais produzidos no Brasil?

Nery: Há uma expectativa de uma pequena redução no preço do minério de ferro, mas essa redução não comprometerá a operação das empresas.

O ouro  está com um preço muito alto e a continuidade desses níveis dependerá muito de fatores econômicos globais. Porém, em termos de projetos de ouro, vejo um cenário muito positivo, porque os custos das mineradoras que desenvolvem seus projetos de ouro no Brasil são denominados em reais e isso vai manter esses projetos muito competitivos.

Outro setor que deve ser forte no próximo ano é o cobre . A demanda por cobre se manterá em patamar significativo, pois hoje existe uma tendência no mercado de materiais ligados à produção de baixo carbono, como os veículos elétricos.

O cenário de fertilizantes também, com forte demanda por commodities agrícolas da China, é outro segmento que estamos otimistas.

BNamericas: Há temores de que uma segunda onda de COVID-19 possa afetar o Brasil e a América Latina, como já está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos. Quais são os riscos de uma segunda onda de contaminação afetando as operações  do segmento de mineração?

Nery: As empresas já definiram bem quais os cuidados que devem tomar para evitar o risco de contágio em suas respectivas operações.

Se olharmos para a primeira onda, não houve um grande número de infecções envolvendo mineração no Brasil. Com o cuidado que as empresas aprenderam a assumir, agora incorporado ao cotidiano das empresas, uma segunda onda teria impacto muito limitado nas operações.

BNamericas : Este ano, além da pandemia, um tema amplamente discutido no setor de mineração foram as práticas ESG [ambiental, social e governança corporativa]. Em que medida, em sua opinião, essas práticas têm sido adotadas pelas mineradoras?

Nery: Acredito que isso esteja evoluindo bem dentro das empresas e uma questão que veremos ganhando força será a autorregulação do mercado em relação às práticas ESG.

Já temos uma legislação forte, onde as empresas devem respeitar rígidos padrões de conduta. Agora a tendência será a autorregulação dos agentes de mercado, implementando ainda mais essas práticas.

Temos planos de ação dentro do Ibram onde avançaremos em termos de governança das mineradoras e também nas melhores práticas de produção, com uso de tecnologia, para o desenvolvimento da mineração sustentável.

Isso já está presente em relação à segurança de barragens de rejeitos e segurança operacional das empresas, e o mercado tem exigido isso cada vez mais.

BNamericas: Durante a pandemia vimos empresas de vários segmentos aumentando seus investimentos em tecnologia. Qual é o estágio desses investimentos no setor de mineração?

Nery : A tecnologia implementada na mineração se acelerou durante a pandemia e esse investimento não deve ser reduzido, mesmo depois da pandemia.

As características do Brasil são desenvolver a mineração em áreas remotas onde é difícil transportar pessoas, não há muita disponibilidade de mão de obra, então isso já obrigou a uma mineração cada vez mais autônoma.

Nos últimos dois anos, também vimos um grande avanço no uso de tecnologia para aumentar a segurança das barragens de rejeitos, e essa tecnologia tende a aumentar.

O que temos então é uma combinação de fatores que apontam para um aumento dos investimentos em tecnologia no setor de mineração, que é aquela tecnologia utilizada para aumentar a segurança das operações e também para melhorar os sistemas operacionais.

BNamericas:  Principalmente no Brasil, as pequenas e médias empresas sempre tiveram dificuldade em captar recursos no mercado devido às altas taxas de juros. Como a taxa de juros atual em níveis historicamente baixos está mudando esse cenário?

Nery: O baixo interesse é sempre positivo, temos que reconhecer e aplaudir isso. O baixo nível das taxas de juros torna as condições do empréstimo mais favoráveis.

Agora, ainda temos alguns projetos com dificuldades de captação de recursos e no Ibram discutimos opções para melhorar o clima de negócios.

Uma das opções sobre a qual temos conversado com o governo é a utilização de direitos minerários por empresas como garantia financeira para obtenção de empréstimos. Se uma empresa pudesse oferecer direitos minerais como garantia, seria muito mais fácil obter novos financiamentos.

Outro ponto que queremos promover é o acesso das empresas juniores ao mercado de capitais. A exploração mineral envolve muito risco, então é melhor ter uma estrutura de capital baseada no patrimônio líquido ao invés de dívida. Estamos em negociações com a Bolsa de Valores de Toronto, que já possui essa expertise, e com a operadora de bolsa de valores brasileira para tentar desenvolver um mercado no Brasil para essas pequenas mineradoras levantarem recursos por meio da venda de ações.

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