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Laboratórios de São Paulo têm poucos testes de Covid-19

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Mais da metade dos laboratórios de diagnóstico médico de São Paulo têm testes de Covid-19 e influenza suficientes para menos de uma semana. Em 22,5% deles, o estoque é suficiente para 15 a 21. Os dados surgem de levantamento do SindHosp, sindicato dos hospitais e estabelecimentos de saúde, com 111 redes privadas de diagnóstico médico no estado, totalizando 1.800 unidades.

O levantamento realizado entre os dias 10 e 14 de janeiro também mostra que a maioria dos laboratórios com estoques baixos estão localizados no interior de São Paulo. Em alguns laboratórios, em cidades como Jacareí e São José do Rio Preto, a demanda por exames aumentou 500%.

O levantamento mostra que 88% dos laboratórios enfrentam dificuldades para repor seus estoques de testes de Covid-19 e influenza. Houve aumento de 99% e 92% na demanda por testes para Covid-19 e influenza, respectivamente, nos últimos 15 dias.

Francisco Balestrin - Foto: Silvia Costanti / Valor

Francisco Balestrin – Foto: Silvia Costanti / Valor

Segundo o médico Francisco Balestrin, presidente do SindHosp, existe o risco de falta geral de materiais, medicamentos e até oxigênio, como aconteceu no ano passado com a variante delta que levou à superlotação dos hospitais.

“Não há prazo para saber por quanto tempo conseguiremos manter o atendimento laboratorial em níveis tão elevados, pois os estoques variam muito entre laboratórios e regiões, e a escassez chega mais rapidamente aos pequenos e médios laboratórios, já que as grandes redes têm maior capacidade de compra e armazenamento capacidade”, disse Balestrin.

Segundo Luiz Fernando Ferrari, coordenador da Comissão de Laboratório do SindHosp, a pesquisa também apurou que predomina a faixa etária de pacientes entre 30 e 50 anos em testes positivos para Covid-19.

A falta de testes de Covid-19 deve tornar o planejamento e controle da doença ainda mais prejudicado no país, segundo epidemiologistas ouvidos pelo Valor. É com os dados desses testes que especialistas analisam o desenvolvimento de novas cepas do vírus, medem a demanda futura por leitos hospitalares, as regiões com maior predisposição para registrar casos e que precisarão, por exemplo, decretar restrições mais duras contra a pandemia , como um bloqueio.

A testagem é uma ferramenta para quebrar a cadeia de transmissão do vírus, já que quando um caso positivo é detectado, é realizado o isolamento para evitar sua disseminação. Além disso, há questões práticas do dia a dia, como o afastamento do trabalho que é obtido com o resultado do exame. Sem esse diagnóstico em mãos, corre-se o risco de que os trabalhadores infectados não se isolem e levem a um aumento ainda maior de casos.

O número de contaminações disparou no início do ano, após as festas de fim de ano, o que gerou uma demanda exponencial por testes. O número médio de casos foi de xxxxx, na semana móvel de xxx. É o maior desde xxxx. Segundo estudos iniciais de xxxx, a taxa de transmissão do ômícron é de xxx a x – maior que a do vírus do sarampo, considerado, até então, o mais contagioso.

Segundo Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo, com esse aumento de casos, é certo o aumento das internações. “O Omicron se mostrou menos letal, mas o grande problema é que esse vírus tem uma enorme capacidade de transmissão, e com isso as chances dele atingir pessoas com baixa imunidade, em tratamento médico, recuperação de cirurgias ou idosos é muito maior. ” ela disse.

Com as cepas anteriores do Covid-19, cerca de 20% dos infectados evoluíram para um caso grave e 5% precisaram de ventilação mecânica. Com o omicron, esses percentuais têm sido bem menores, mas as dúvidas giram em torno de sua evolução, e os testes são uma ferramenta para acompanhá-lo.

Segundo a epidemiologista Gerusa Figueiredo, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a falta de testes de Covid-19 vai dificultar a análise do sequenciamento genômico do vírus, um tipo de estudo que exige um grande volume de testes e é fundamental para fazer projeções de internações e políticas de isolamento.

Os epidemiologistas ouvidos pelo Valor são unânimes em declarar que o governo brasileiro nunca investiu em uma política de testagem em massa, nem em uma indústria local de Covid-19, para evitar a atual escassez de insumos importados, como já ocorreu no início de a pandemia.

“Os governos, principalmente o federal, nunca investiram em uma rede de testagem em massa. Houve tempo suficiente para fazer isso, e estamos dois anos na pandemia. Ao saber do diagnóstico, atacamos o problema pela raiz, tirando de circulação as pessoas infectadas. Mas estamos vivendo um apagão de dados, que começou lá em setembro, e agora temos menos testes para fazer projeções que já são prejudicadas pela subnotificação”, disse Wallace Casaca, matemático da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do Plataforma Info Tracker, que rastreia casos de Covid-19 em São Paulo.

O epidemiologista e médico sanitarista Antonio Silva Lima Neto, da Universidade Federal de Fortaleza, aponta que a falta de exames acontece em um momento próximo ao início do ano letivo, com crianças ainda em fase inicial de imunização contra a Covid-19 .

“Não sou contra o retorno presencial dos alunos às escolas, mas é imprudente. Vivemos um momento epidemiológico complexo, com o vírus Covid-19 e a gripe concomitante”, disse. Um de seus estudos mostra que a máscara cirúrgica não é eficaz contra o ômicron e que o tipo ideal é o N95, mas ele admite que é um modelo mais complicado de ser usado por crianças devido ao seu tamanho. Ele lembrou que em outros lugares, como Estados Unidos e Reino Unido, são oferecidos testes semanais aos alunos. “Deveríamos ter feito o autoteste há muito tempo.”

Outro impacto da falta de exames de Covid-19 é nos profissionais infectados que precisam do diagnóstico para comprovar a doença e solicitar afastamento. Há empresas que só o concedem com o resultado positivo em mãos, o que pode levar alguns trabalhadores a irem trabalhar, com medo de perder o emprego.

Além disso, o Dr. Figueiredo, da USP, lembra que atualmente os sintomas da Covid-19 estão sendo muito confundidos com os da gripe, o que pode levar as pessoas a manterem sua rotina profissional, dadas as dificuldades de encontrar exames. “As pessoas precisam ser diagnosticadas para ter folga do trabalho. Sem provas, corre-se o risco de os funcionários irem trabalhar por medo de perder o emprego e acabar infectando outras pessoas”, disse ela.

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