Economia

Juros reais em alta refletem incerteza no horizonte do Brasil

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Enquanto as taxas de juros globais já estão se ajustando às expectativas de que a normalização da política monetária ganhará força nos países desenvolvidos, um sinal de alerta continua a piscar no mercado brasileiro. 

A taxa de juros real, que exclui o impacto da inflação e é uma das variáveis ​​que melhor expressa a percepção do investidor sobre o futuro, já se encontra em patamares muito elevados no Brasil – as taxas das NTN-Bs de longo prazo (Notas do Tesouro Nacional ) permanecem acima de 5,5%, o que reflete uma alta dose de incerteza no horizonte, segundo analistas de mercado.

“Esse tema deve dominar os debates do mercado em 2022, já que a taxa real de juros de longo prazo está bastante alta”, disse Luciano Paiva, estrategista de renda fixa do Credit Suisse no Brasil. 

O aumento da complexidade na discussão sobre contas públicas, cujo debate se tornou mais acalorado; as incertezas geradas pelas eleições iminentes; e os crescentes desafios externos são alguns dos fatores que justificam a exigência do mercado por um prêmio de risco cada vez maior, o que se traduz em uma pressão cada vez mais intensa sobre a curva de juros reais, disse.

Uma forma de saber o tamanho do prêmio exigido pelo mercado é analisar como se comporta o spread entre a taxa de juros real de longo prazo brasileira e a taxa real de referência norte-americana. No final de setembro, quando ainda não havia uma percepção firme entre os players do mercado de que o regime fiscal seria sucateado, o spread entre a taxa NTN-B de maio de 2045 e as taxas de juros reais de longo prazo dos EUA, extraídos dos dez TIPS (Notas do Tesouro) de 1 ano, aproximou-se de 6 pontos percentuais, o maior desde 2016 – e grande parte devido à alta substancial dos juros reais brasileiros.

A taxa NTN-B para 2045 encerrou setembro em torno de 5%, mas a escalada dos juros reais do mercado não parou por aí. Em outubro, a taxa atingiu 5,65%, o maior patamar do ano, e desde então ficou entre 5,1% e 5,5%. No entanto, já nos primeiros dias deste ano, a alta abrupta da taxa de juros real norte-americana se refletiu nas taxas NTN-B e, nesta semana, o rendimento da nota atingiu 5,72%, mostram dados da Renascença.

Considerando a clara piora na percepção do risco fiscal, é natural que o mercado exija um prêmio de risco maior para as taxas de juros reais de longo prazo, disse Mauricio Juncá, sócio e gestor de taxas de juros da Vinland Capital. “E olhando para a realidade atual e tendo em vista o que vamos enfrentar pela frente, parece mais provável que passemos para um nível mais alto, em vez de mais baixo, da taxa de juros real.”

O principal desafio no momento é saber como serão os planos econômicos dos candidatos à presidência, e eles serão descobertos ao longo do processo eleitoral, disse Juncá. Além disso, outro fator relevante é a velocidade de normalização da política monetária nos Estados Unidos. “Como vai ser esse ajuste? Que ritmo será adotado?” ele perguntou. Para ele, a política do Federal Reserve dos EUA (o banco central americano) será fundamental para medir os prêmios.

Quanto às taxas de juros reais de longo prazo acima de 5,5%, o Sr. Juncá observa que este não é um nível de prêmio de risco baixo, “mas dadas as incertezas que podemos ter pela frente, em algum momento é razoável que esses prêmios sejam mais alto antes de vermos uma melhora.” Para ele, a falta de clareza com a normalização das taxas de juros nos EUA e a incerteza e volatilidade natural trazidas pelas eleições aqui podem ter como resultado líquido um prêmio de risco ainda maior. “Eu não ficaria surpreso se isso acontecesse.”

Paiva, do Credit Suisse, lembrou que o próprio Banco Central elevou sua estimativa de juros neutros em termos reais para algo próximo a 3,5% em seu relatório de inflação de dezembro. “Meu palpite é que o Banco Central precisará revisar um pouco mais, então pode ficar em torno de 4%. Não está definido, mas me parece que o nível de 4% faz sentido, seria uma referência muito honesta”, disse ele. 

O estrategista observa que, desde outubro, a situação fiscal se tornou mais complexa no Brasil, com acontecimentos que aqueceram o debate. “Além disso, em ano eleitoral, é muito difícil ver um avanço rápido nas reformas que nos permitiriam ter uma situação fiscal mais tranquila.”

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