Economia

Itaú compra corretora para acelerar expansão do varejo

Bancos itau

Até o início de outubro do ano passado, o Itaú estava proibido pelo Banco Central do Brasil de fazer novas aquisições no segmento de investimentos, por conta de seu acordo com a gestora de recursos XP. Concluída a separação entre as duas empresas, essa interdição deixou de existir e o Itaú divulgou nesta quinta-feira a compra da Ideal, outra corretora. O banco pagará R$ 651,3 milhões por 50,1% da empresa e, após cinco anos, poderá adquirir a fatia restante.

A Ideal Investimentos deve ser a ponta de lança para o Itaú Unibanco entrar em negócios que ainda não operou, de acordo com Carlos Constantini, presidente-executivo da divisão de gestão de patrimônio e serviços do banco. Como a corretora digital atende principalmente investidores institucionais em negociações de alta frequência, o executivo não espera que haja qualquer barreira para a aprovação do negócio, seja pelo regulador antitruste Cade ou pelo Banco Central, como aconteceu com a transação com XP.

“Não estamos comprando uma base de clientes [como foi o caso da XP]. Ideal ainda vai fazer um movimento para construir varejo. Estamos comprando o conhecimento e a tecnologia das pessoas. Não é comparável”, disse Constantini. “É mais a expectativa de construir um negócio do que comprar um negócio e continuar dirigindo.”

Foi o recente divórcio da XP que também permitiu ao Itaú olhar para o seu entorno. “Será um ano emocionante para colocar as peças no tabuleiro e jogar. Não acho que serão grandes aquisições, mas do nosso ponto de vista é uma oportunidade de olhar para toda a plataforma e diferentes formas de atender o cliente onde o banco não está”, disse o executivo.

Arranjos no modelo “broker as a service”, para oferecer investimentos com marcas de parceiros e alcançar novas bases de clientes estão entre os planos para a aquisição. Empresas de varejo, concessionárias e o segmento corporativo atendidos pelo Itaú são os alvos potenciais. Também será na plataforma da Ideal que o Itaú pretende acelerar o atendimento aos consultores financeiros independentes, grande responsável pela ascensão da XP. A fintech encerrou 2021 com R$ 815 bilhões sob custódia.

“Quando olhamos para frente, a corretora digital terá um papel importante no atendimento a clientes de varejo, seja diretamente ou por meio de terceiros, como consultores financeiros independentes, ou em ambientes fora do mercado financeiro, como varejistas”, disse o Sr. diz Constantino. Ele disse que há algum tempo já discutia com os sócios da Ideal algum tipo de parceria, mas as conversas naturalmente evoluíram para uma aquisição. A compra do controle e, em seguida, toda a operação estarão efetivamente sujeitas a aprovações regulatórias.

Diferentemente da transação com a XP (na qual houve compromisso de ambas as partes), esse é um direito que pode ser exercido ou não. Na transação, tanto os sócios fundadores da Ideal quanto o fundo Kaszek serão diluídos proporcionalmente ao aporte de capital do Itaú. A gestora de private equity investiu R$ 100 milhões no negócio em setembro de 2020.

Na visão de Filipe Medeiros, CEO da AAZW, empresa que presta serviços de tecnologia e consultoria para consultores financeiros independentes, para uma instituição do porte do Itaú, era natural que ela avançasse nesse mercado e a compra de Ideal serve para isso. “O mercado de consultoria independente, representado em grande parte por agentes independentes, já é grande demais para não ser considerado por corretoras e bancos que querem entrar nesse setor”, disse.

Para Carlos Macedo, analista da OHM Research, o Ideal é complementar aos negócios existentes do Itaú e permite que o banco concorra em igualdade de condições com XP, BTG e Nubank. “Vale lembrar que as receitas de serviços no modelo tradicional – cobrança de manutenção de conta, transferências, etc. – são um modelo de negócio que tende a morrer”, disse. “Serviços de maior valor agregado, como assessoria de investimentos, por exemplo, ainda devem gerar receita para os bancos. Faz sentido o Itaú buscar expandir sua atuação nesse campo, já que seus concorrentes são bastante ativos.”

Renata Cardoso, sócia bancária e financeira do escritório Lefosse, diz que ainda não é possível saber como o CADE e o Banco Central vão avaliar a compra da Ideal pelo Itaú, mas ressalta que o negócio faz parte de um grande movimento de fusões e aquisições (M&A) no setor de serviços financeiros. “Os grandes bancos estão usando essas aquisições como forma de renovar seus negócios, reinventar a forma de operar e até adquirir e desenvolver novas tecnologias. É algo que continuaremos a ver ao longo de 2022.”

“Surge como um mantra de foco no cliente. São eles que mais vão ganhar com o negócio, pois a Ideal vai nos ajudar a ampliar e padronizar a oferta para os diferentes canais”, disse o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, em nota. Nilson Monteiro, CEO da Ideal, permanecerá à frente de suas operações, juntamente com os demais sócios fundadores da empresa. A gestão e condução dos negócios da Ideal permanecerá independente do Itaú, que se tornará mais uma instituição atendida pela corretora.

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