Economia

Investimento no varejo deve se estabilizar, apontam analistas

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O cenário de investimentos para o varejo neste ano deve se manter estável diante de uma possível nova desaceleração do comércio físico, equilibrada pelo desenvolvimento do comércio eletrônico, dizem analistas de bancos de investimento e agências de rating consultados pelo Valor.

Fontes do mercado apontam que a abertura de novas lojas está relacionada ao consumo aquecido e ao rápido retorno dos investimentos, o que pesa contra movimentos de expansão de curto prazo.

O analista de varejo do Banco do Brasil Georgia Jorge diz que a explosão de casos do vírus H3N2 e da variante ômicron do coronavírus levaram a uma deterioração das expectativas. “As empresas focadas no comércio físico provavelmente permanecerão sob mais pressão enquanto essas incertezas persistirem”, diz ela.

Segundo o analista, a perspectiva para o primeiro trimestre de 2022 é de vendas “ainda pressionadas” em geral, enquanto os varejistas farmacêuticos podem aumentar suas previsões em meio às epidemias de gripe e Covid-19.

O analista da S&P Diogo Ocampo lembra que as vendas nas lojas físicas no início de 2021 foram fortemente afetadas devido à pandemia. Segundo ele, a demanda não foi totalmente deslocada para a operação online, o que resultou em queda nas vendas.

“Foi um ano muito difícil, com Ebitda em queda e demanda migrando para o canal online. Todas essas empresas têm canais online, mas perderam receita nesse cenário”, afirma.

O campo diz que o recuo do consumo impactou a geração de caixa das empresas, provocando alertas em relação ao nível de endividamento.

De acordo com o CFO da Fitch, Ricardo Carvalho, as incertezas macroeconômicas também impactam o nível de investimentos do varejo por conta da dependência de prazos mais curtos de retorno. A expectativa, segundo o analista, é que a abertura de novas lojas desacelere nos próximos meses.

“Há uma expectativa de demanda menor e os varejistas têm que olhar para o que vai acontecer em 2022. Eles não podem fazer planos para dois ou três anos. Se a demanda não vier, será um período de perdas. Então é uma decisão de investimento diferente de saneamento ou ferrovias”, diz.

O Itaú BBA, no entanto, destaca que as lojas físicas também atuam como suporte logístico para o comércio eletrônico, o que deve mitigar o cenário geral mais difícil. A analista de varejo Helena Villares alerta que isso não significa que as empresas não devam revisar suas estimativas para baixo.

“Já sabíamos que seria um cenário macro mais incerto, com desaceleração natural para o varejo como um todo. As lojas físicas estão sofrendo, mas também há o papel do e-commerce, de reunir estoques e reduzir custos”, afirma.

O cenário para segmentos mais essenciais, como alimentos, também apresenta dificuldades ligadas ao macroambiente. A Fitch diz que o desempenho das empresas outrora impulsionado durante a pandemia foi afetado pelo desemprego e pela inflação.

“O poder aquisitivo das famílias hoje é muito menor do que há seis meses. Há um nível mais alto de incerteza e uma tendência de enfraquecimento”, diz Carvalho.

Essa também é a visão do Banco do Brasil, que destaca a resiliência do cash-and-carry em função da política de preços mais baixos.

“Embora o varejo de alimentos tenha um perfil mais essencial – o que lhe confere certo grau de proteção – o fato é que a inflação de alimentos vem pesando no bolso do consumidor brasileiro, reduzindo seu consumo a itens básicos e efetivamente essenciais da cesta básica. ”, diz a analista Geórgia Jorge.

Considerando a menor elasticidade do mercado de alimentos, o Itaú BBA destaca que o segmento é uma das preferências.

“O varejo provavelmente sofrerá – pelo menos na primeira metade do ano – mas o declínio no varejo de alimentos está se aproximando do limite”, diz Villares.

Outro fator que deve continuar pesando sobre os títulos do varejo, segundo o Itaú BBA, é o afastamento dos fundos de investimento do setor.

O analista diz que, devido à alta taxa de juros e ao fraco desempenho do Ibovespa, muitos gestores de fundos têm preferido aumentar a composição de outros setores em suas carteiras.

“Antes, a exposição ao varejo era de 15% a 25%, mas muitos fundos podem chegar a 5% de exposição por causa desse ajuste de carteira”, explica.

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