Economia

Inflação no Brasil: ‘As pessoas compram menos e os fornecedores vendem a preços mais altos’

Segundo dados oficiais, pela primeira vez nesse período desde 1994, a inflação atingiu 1,62% em março. Os alimentos são os primeiros a serem afetados.

No mercado público do Largo do Machado, no coração do Rio de Janeiro, as pessoas não usam mais máscaras, mas continuam preocupadas. A Covid-19, que marcou um declínio, foi seguida por outra dificuldade igualmente angustiante: a inflação. “Tudo subiu muito ultimamente.

Temos que ter cuidado com tudo o que compramos”, disse Elaine, uma cliente de 50 anos, vagando entre as barracas e as árvores tropicais. Alguns preços, como os de cenoura ou tomate, dobraram em poucas semanas. “Eu compro o mínimo, não deixo nada estragar. E, infelizmente, tive que parar de comer carne vermelha”, disse ela.

“Esta semana, só pude comprar uma cenoura”, disse outro consumidor, parecendo preocupado. No Largo, também é perceptível a angústia dos lojistas. “As pessoas compram cada vez menos e os fornecedores vendem a preços cada vez mais altos. Como resultado, meus lucros caíram de 30% a 40% nas últimas semanas”, disse Bruno, um jovem vendedor de frutas e legumes, vestindo um avental verde. Ele é fatalista sobre o futuro: “O que posso fazer? Só me resta Deus, oração e espera…”

A situação é alarmante: segundo dados oficiais, a inflação atingiu 1,62% em março – a primeira vez neste mês desde 1994. Essa taxa, que pode parecer modesta, não leva em conta a alta vertiginosa dos preços dos bens essenciais, especialmente na alimentação: +19,51% para mamão, +27,22% para tomate, +33,12% para pimentão e +31,47% para cenoura, cujo valor por quilo aumentou 166,17% em um ano.

Planos de estabilização ineficazes

Esses números foram descritos como “aterrorizantes” por alguns da imprensa e economistas, que estão soando o alarme. O Brasil continua traumatizado por um ciclo de hiperinflação que, entre as décadas de 1980 e 1990, viu os preços dispararem até 2.000% ao ano. Após cerca de 15 planos de estabilização ineficazes e cinco mudanças cambiais sucessivas, o país conseguiu conter o fenômeno em 1994 graças a um conjunto de medidas chamado “Plano Real” elaborado pelo então ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, eleito presidente naquele mesmo ano.

A crise do Covid-19 desacelerou a produção. Quanto à guerra na Ucrânia, provocou um aumento do preço do trigo, do gás e em particular do petróleo, que é essencial para o funcionamento de uma economia muito dependente do transporte rodoviário

Nesta fase, os especialistas descartam o risco de um retorno à hiperinflação. “Nossa economia está mais bem estruturada hoje, com reservas financeiras significativas e maior credibilidade em escala internacional”, André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas.

A inflação atual resulta sobretudo de fatores externos: a crise do Covid-19 que desacelerou a produção, mas também e sobretudo a guerra na Ucrânia que provocou um aumento do preço do trigo, do gás e sobretudo do petróleo, essencial para a funcionamento de uma economia muito dependente do transporte rodoviário. Em março, o aumento dos preços dos combustíveis atingiu 6,95% e até 13,65% para o diesel.

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