Economia

Análise: inflação acelerada mostra dificuldades para atingir meta de 2022

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A alta da inflação em 12 meses até outubro não foi a única notícia negativa divulgada pelo IBGE. 

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de outubro, divulgado quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), destaca as grandes dificuldades que o Banco Central já enfrenta para trazer a inflação de 2022 para a meta.

Roberto Campos Neto — Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Roberto Campos Neto — Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Nas últimas semanas, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e a chefe de relações internacionais e gestão de riscos corporativos, Fernanda Guardado, haviam calculado que a inflação acumulada em 12 meses havia atingido seu pico em setembro. Segundo eles, o indicador provavelmente perderia força a partir de então.

Não foi o que se viu nesta quarta-feira. Conforme divulgado pelo IBGE, o índice acelerou para 10,67% em outubro, de 10,25% em setembro. Foi exatamente em 10,67% que o IPCA encerrou 2015, ano marcado pelo forte agravamento da crise econômica do governo Dilma Rousseff. Essa foi a maior taxa de inflação anual desde 2002.

Mas a alta da inflação em 12 meses até outubro não foi a única notícia negativa divulgada pelo IBGE. Em termos quantitativos, o aumento mensal foi o maior de outubro (1,25%) desde 2002. Tanto no acumulado em 12 meses quanto no mensal, os números superaram o teto das projeções levantadas pelo Valor Data com 40 consultorias e financeiras (1,17% e 10,59%, respectivamente).

Em termos qualitativos, a média dos cinco núcleos inflacionários monitorados pelo Banco Central (medidas mais sensíveis à taxa básica de juros e à atividade econômica) subiu para 6,98% de 6,51% no período de 12 meses, segundo cálculos da MCM Consultores.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) já havia admitido em suas comunicações oficiais que “as diversas medidas de inflação subjacente (de forma simplificada, outro nome para os núcleos) estão acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta de inflação”.

Além disso, o índice de difusão, que mede a proporção dos itens da cesta do IPCA que tiveram preços elevados, subiu de 65% em setembro para 66,8% em outubro. Mesmo excluindo os alimentos, cujos preços são considerados mais voláteis, o indicador saltou de 66% para 74,6%. Embora algum fator sazonal mais intenso possa ter influenciado o índice, ele ainda era o maior desde maio de 2005 (74,8%).

Vale destacar também que o preço das commodities de energia em reais, medido pelo Índice de Commodities Brasil (IC-Br), teve a maior alta mensal em outubro (19,98%) em mais de 22 anos. Devido à natureza desses produtos, o aumento de seu preço tem forte contaminação em toda a cadeia.

Tudo isso acontece justamente no momento em que o Banco Central reforça que está trabalhando para cumprir a meta de inflação para o ano que vem. Atualmente, para conduzir a taxa básica de juros Selic, o Copom visa igualar os pesos para 2022 e 2023, cujas metas são 3,5% e 3,25%, respectivamente. Em ambos os casos, há uma faixa de tolerância de 1,5 pontos percentuais mais ou menos. No Relatório Trimestral de Inflação divulgado em setembro, o Banco Central estimou em 17% a chance de a inflação ficar acima do limite superior da meta em 2022.

Apesar da garantia dada não só pelos Srs. Campos Neto e Sra. Guardado, mas também pelo chefe de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, e pelo chefe de política monetária, Bruno Serra Fernandes, de que o Banco Central continua com a meta de inflação para 2022, Vários economistas já vêm destacando nas últimas semanas as dificuldades para atingir a meta para o ano que vem.

Essa desconfiança se reflete nas projeções de mercado. O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com economistas do setor privado, mostra que a mediana da estimativa para o IPCA de 2022 está subindo nas últimas 16 semanas, chegando a 4,63% na semana passada – ainda dentro da faixa de tolerância.

Soma-se a todas essas dificuldades a aprovação em segunda votação pela Câmara dos Deputados da proposta de emenda constitucional (PEC) relativa ao pagamento de dívidas judiciais. Segundo especialistas em contas públicas, o projeto, que agora segue para o Senado, enfraquece ainda mais o teto de gastos, regra que limita o crescimento do gasto público à inflação do ano anterior. Segundo o Valor, os encontros de segunda-feira entre executivos do Banco Central e dezenas de economistas do mercado foram marcados pelas incertezas e pessimismo deste último grupo em relação ao quadro fiscal.

Resta observar se haverá algum tipo de mudança no discurso dos membros do Copom em relação à meta de inflação para 2022. A única comunicação pública desde a divulgação da ata na semana passada foi feita pelo Sr. Serra. Em entrevista ao Nikkei Ásia nesta quinta-feira, ele disse que o Banco Central continua com a meta de inflação para 2022 e que, “se for preciso elevar [a Selic] em mais de 150 pontos base na próxima reunião, teremos que fazer tão.” O Sr. Campos Neto e os executivos do Banco Central freqüentemente enfatizam que o comitê não reage a dados tempestivos de inflação.

Atualmente, a Selic está em 7,75% ao ano e, em ata, o Copom afirmou que “antecipa outro reajuste” de 150 pontos base para a reunião de dezembro, mas fez a ressalva de que esse cenário depende “da evolução da atividade econômica, o equilíbrio dos riscos e as projeções e expectativas de inflação ”. É em um cenário cada vez mais desafiador que a autoridade monetária precisará pesar todas essas variáveis.

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