Petróleo

Indústria de celulose e papel dribla cenário econômico conturbado

Balanço de 2015 e perspectivas para 2016 apontam resultados positivos e continuidade de investimentos no segmento de celulose, além de estratégias dos segmentos de papel para superar dificuldades acarretadas pela estagnação do mercado interno

21/04/2016 – Os resultados mais recentes do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam queda de 1,7% no terceiro trimestre de 2015 em comparação ao período anterior. Na comparação com o terceiro trimestre de 2014, a economia brasileira apresentou recuo de 4,5%. Já tomando o ano completo de 2015, o indicador que mede o desempenho da economia sinaliza queda de 3,8%.

Na visão de Maílson da Nóbrega, economista e ex-ministro da Fazenda, os resultados econômicos de 2015 refletem a conta dos equívocos da atual política econômica. “A desastrosa matriz macroeconômica, a incrível intervenção do setor elétrico, o controle dos preços nóbregados combustíveis e a queda nos investimentos da cadeia do petróleo são as causas essenciais da pior recessão da economia desde o início dos anos 1990”, enumera ele.

Ainda de acordo com Nóbrega, o setor industrial foi o que pagou o maior preço dos erros de gestão econômica. “O diagnóstico de que havia um problema de demanda, quando na verdade era de oferta, levou o governo a implementar um conjunto de medidas para incentivar o consumo: desonerações tributárias, subsídios sem foco adequado e outras medidas desorientadas.

Como resultado, uma queda insustentável do desemprego, ganhos salariais acima da produtividade, pressões inflacionárias e vazamento do excesso de demanda para o exterior, elevando as importações. O custo unitário do trabalho, medido em dólares, aumentou mais de 50%”, justifica. Ele também afirma que a ausência de reformas agravou a operação da logística pelas deficiências da infraestrutura de transportes e que piorou a já baixa qualidade do sistema tributário. “Tudo isso resultou em queda na produtividade do setor industrial e em dramática redução de sua competitividade.”

Apesar de inserida em um contexto econômico pouco favorável, a indústria brasileira de celulose apresentou bons resultados no ano passado. Os dados preliminares apresentados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) mostram que a produção da commodity em 2015 atingiu 17,2 milhões de toneladas, com alta de 4,5% sobre o volume de 2014. As exportações cresceram 8,6% em relação ao ano anterior, totalizando 11,5 milhões de toneladas.

Na avaliação de Elizabeth de Carvalhaes, presidente executiva da Ibá, o grande volume de exportação já anunciava que o segmento de celulose se beneficiaria com o câmbio atual. Ela pontua, no entanto, que há muitos outros fatores a diferenciar e a praticamente isolar a Elizabeth Carvalhaes Ibácelulose diante de outras commodities. “Além de exportar e contar com a vantagem do dólar em alta, os tradicionais mercados externos estão muito bem consolidados e colaboraram com os resultados”, diz ela, referindo-se à recuperação econômica dos Estados Unidos, que fez com que as vendas de celulose passassem por um momento correspondente a essa recuperação.

As exportações para a América do Norte somaram US$ 984 milhões, valor que representa uma variação positiva de 1% em relação a 2014. Elizabeth também se refere à recuperação da Europa, que apresenta um crescimento lento, porém estável, ocasionando o crescimento das exportações a uma taxa de 3,3%, totalizando US$ 2,1 bilhões em 2015, e ao desempenho da China, que teve um crescimento expressivo de volume, de 8,8% em relação a 2014, e soma de US$ 1,8 bilhão.

“Se lançarmos um olhar ainda mais atento ao comportamento das commodities, podemos notar que, em vez de perder precificação, como os minerais e as commodities agrícolas, a celulose precificou quatro vezes no ano, aumentou de volume e, consequentemente, elevou o faturamento, resultando em US$ 5,2 bilhões em 2015 e variação positiva de 6,3% em relação a 2014. Toda essa situação acabou sendo beneficiada pelo fato de o Brasil ter o menor custo de produção do mundo e por ser o país mais capacitado a fabricar e colocar produtos provenientes de árvores plantadas no mercado mundial”, completa Elizabeth, ressaltando que a soma de fatores positivos foi a grande responsável pelo bom desempenho do segmento no ano passado.

Também fazendo um balanço dos fatos que marcaram o segmento de celulose no ano passado, Carlos Alberto Farinha, vice-presidente da consultoria finlandesa Pöyry, destaca que as boas margens conquistadas pelos players brasileiros ao longo dos últimos 12 meses colaboraram com a entrada em operação da planta da Celulose Riograndense – cuja capacidade produtiva anual passou para 1,8 milhão de Carlos Farinha Poyrytoneladas, com a soma das Linhas 1 e 2, a partir do startup do Projeto Guaíba 2, em maio último – e não trouxeram grandes impactos em termos de preço.

Embora os segmentos exportadores sejam beneficiados pelo câmbio atual e pela estabilização dos mercados externos, a competitividade sistêmica, que advém da redução dos custos, da inovação, dos ganhos de eficiência e da elevação da produtividade, segue sendo prejudicada pelo já conhecido “custo Brasil”, que, segundo define Nóbrega, deriva de disfunções do sistema tributário, do anacronismo do sistema trabalhista e das deficiências da infraestrutura. “Em condições normais de equilíbrio na economia, as empresas encontram oportunidades de expansão tanto no mercado interno quanto no externo. Hoje, todavia, há um nítido desbalanceamento. A expressiva depreciação cambial compensou grande parte da perda de competitividade da indústria, inclusive porque reduziu o custo unitário do trabalho em dólares.

Uma boa parcela do setor recuperou a capacidade de explorar o mercado externo, o que muitas empresas já estão fazendo. Internamente, exceto pelos segmentos que se beneficiam da depreciação cambial (os que substituem importações), a indústria enfrenta as consequências da recessão, da queda de confiança dos consumidores e da redução da demanda e da oferta de crédito”, explica o economista.

A conjuntura justifica a diferença de performance bastante evidente entre os segmentos de celulose e papel no mercado interno. Segundo dados preliminares da Ibá, a produção total de papéis atingiu 10,3 milhões de toneladas no ano passado, ficando 0,5% abaixo do valor registrado em 2014. As vendas domésticas apresentaram declínio em relação ao ano anterior, fechando em 5,4 milhões de toneladas e apresentando um recuo de 4,6%.

Direcionando o olhar ao desempenho de cada segmento que compõe a indústria nacional de papel, os dados da Ibá mostram que o segmento de embalagem teve produção de 5,4 milhões de toneladas em 2015, valor 1,6% superior a 2014. As exportações do segmento também aumentaram no período: as 727 mil toneladas exportadas representaram um incremento de 7,9% em relação ao ano anterior. As vendas domésticas do segmento, no entanto, tiveram queda de 0,9%, com 1,7 milhão de toneladas.

Ainda de acordo com os dados preliminares da Ibá, a produção de papelcartão acumulou 692 mil toneladas no ano passado, valor que resultou em queda de 1,4% em comparação a 2014. As vendas domésticas de papelcartão tiveram recuo ainda maior, de 5,9%, somando 507 mil toneladas em 2015. As exportações, contudo, cresceram 14,1% em relação a 2014, com um total de 186 mil toneladas.

Conforme o Boletim Estatístico da Associação Brasileira de Papelão Ondulado (ABPO), a expedição de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado somou 3,3 milhões de toneladas em 2015, valor que representa uma variação negativa de 3% em relação ao ano anterior. Ao avaliar os dados apresentados pelos segmentos que compõem o setor de embalagem, Pedro Vilas Boas, diretor da Anguti Estatística, comenta que a queda de vendas no segmento aconteceu, principalmente, em função do baixo desempenho da indústria nacional. “Apesar de as aparas (principal matéria-prima do segmento) não terem passado por aumento de preços como a celulose, colaborando com os custos de produção, o setor acabou sofrendo impacto da redução de consumo.”

Em 2015, o setor de embalagem também passou por algumas movimentações que fortalecem a tendência de consolidação, a exemplo do negócio firmado entre a Suzano Papel e Celulose e a Ibema Companhia Brasileira de Papel. O segmento de embalagem ainda foi marcado pela entrada de investimentos estrangeiros na indústria nacional, com a aquisição da Orsa pela International Paper e da Inpa Embalagens e da Paema Embalagens pela Smurfit Kappa. “Trata-se de uma clara demonstração de que os produtores internacionais de embalagem continuam com visão positiva do setor, apesar da crise econômica que o Brasil enfrenta, pois o mercado de papel brasileiro tem uma expertise não encontrada em outras regiões. Esses produtores, inclusive, estão aproveitando o momento de crise para efetivar tais aquisições”, avalia Farinha, com visão otimista de médio e longo prazo.

Quanto à produção do segmento de imprimir e escrever, de acordo com dados da Ibá, verificou-se total de 2,4 milhões de toneladas em 2015, resultando em um decréscimo de 4,8% em relação à produção de 2014. As vendas domésticas do ano passado apresentaram queda de 11,5% em comparação às do ano anterior, com 1,5 milhão de toneladas. Ao exportar 945 mil toneladas em 2015, o segmento registrou aumento de 9,5% em relação a 2014. “É um mercado que está realmente saturado. Ao observarmos as taxas de importações desses papéis em 2015, podemos perceber que apresentam grande escala negativa, com mais de 40%. Isso mostra o claro e expressivo resfriamento da demanda, e não apenas os efeitos da alta do dólar. A falta do consumo teve um impacto importante na redução de importação”, afirma Elizabeth.

Tal fato colaborou, inclusive, com o papel imune, que historicamente enfrenta concorrência predatória e desleal pelo uso ilegal para fins comerciais. Além da redução da demanda, Levi Ceregato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional), Levi Ceregatosinaliza que o aumento da alíquota de importação e a alta do dólar despontaram como barreiras naturais e levaram a uma significativa diminuição na oferta dos papéis que vinham de fora. “De qualquer forma, a Ibá e a Abigraf seguem trabalhando juntas para coibir as fraudes fiscais relacionadas ao papel imune”, ressalta ele sobre esse trabalho contínuo, que também soma efeitos positivos.

Manoel Neves, gerente de Estudos Econômicos da Pöyry, pondera que o equilíbrio entre a queda das importações e o aumento das exportações do segmento de imprimir e escrever como um todo resultou em um balanço menos negativo do que o esperado. “Podemos considerar que a produção acabou ficando estável em relação a 2014 devido a essa dinâmica entre importações e exportações.” O papel imprensa, também segundo as estatísticas da Ibá, passou por um declínio de produção e vendas domésticas em 2015, produzindo 97 mil toneladas no ano, valor 7,6% abaixo do de 2014, e vendendo 95 mil toneladas, com queda de 9,5% em relação ao ano anterior.

As exportações desse tipo de papel em 2015 foram similares às do ano anterior, com total de 2 mil toneladas. A produção de papéis especiais, que soma uma série de especialidades distintas, chegou a 487 mil toneladas no ano passado, com alta de 1,7% sobre a produção apresentada em 2014. Ainda comparando os períodos, as vendas domésticas recuaram 0,2%, com 411 mil toneladas em 2015. As exportações cresceram 39,8% no ano passado, com 179 mil toneladas.

Sobre a indústria gráfica como um todo, a retração bateu dois dígitos no quarto trimestre de 2015, registrando recuo de 18,6% na comparação com o mesmo período de 2014, segundo cálculos da Abigraf, com base na Pesquisa Industrial Mensal do IBGE. No ano, registrou-se queda de 13,8%, a pior marca da série iniciada em 2003.

“Esperávamos que, em 2015, fôssemos recuperar as pequenas perdas do ano anterior, mas, tendo em vista o ambiente econômico vigente no País – sobretudo a falta de confiança no plano político –, houve redução na demanda de impressos, com exceção do setor de embalagens, que conseguiu manter-se em alguns segmentos e até crescer em outros”, diz presidente da Abigraf. Entre os fatores que levaram aos resultadosvistos, Ceregato cita os aumentos de 12% no preço do papel, de mais de 40% no preço da energia elétrica e de 20% em insumos como chapas e tintas.

“Tudo isso poderia ter sido superado se tivéssemos um mercado pujante, que, porém, está na verdade retraído. Hoje, temos 70% da capacidade produtiva ocupada, o que reflete, portanto, uma ociosidade de 30%”, afirma ele, completando sua avaliação.

No segmento de tissue, todos os tipos de papel, com exceção do papel higiênico de folha dupla, apresentaram queda em suas produções e vendas com relação a 2014, de acordo com dados da Anguti Estatística. A produção totalizou 1,21 milhão de toneladas em 2015, o que representou queda de 2,3% em relação ao ano anterior. “Não se via tal queda na produção e no volume de vendas há muitos anos, e isso aconteceu em um momento no qual a indústria vinha concluindo uma fase de expansão. Como consequência, as empresas acabaram trabalhando com alta capacidade ociosa, e o equilíbrio entre oferta e demanda foi conquistado a partir da paralisação de máquinas e, no caso das empresas menores, paradas de fim de semana e até mesmo nos horários em que a energia elétrica é mais cara”, contextualiza Vilas Boas.

A participação do segmento na produção total de papel no Brasil ficou em 11,6%, com pequena queda em relação a 2014, quando o segmento representou 11,9% de toda a produção nacional de papel. “Basicamente, isso se deve ao crescimento da produção de papel para embalagens, que, beneficiada pelas exportações, conseguiu manter um desempenho positivo em 2015 na comparação com 2014”, esclarece o diretor da Anguti.

produção brasileira de papel anguti

Entre todos os papéis de fins sanitários, os higiênicos de todos os tipos representaram 74% da produção, seguidos pela toalha de mão, que atingiu volume de 204.200 toneladas produzidas em 2015, representando 17% do volume total. Vilas Boas informa ainda que, entre os papéis higiênicos, o de folha dupla continuou ganhando terreno sobre os de folha simples, terminando o ano com uma representação de 38% na produção total de higiênicos em 2015 – no ano anterior, a participação do papel de folha dupla tinha sido de 37%.

produção brasileira de papeis para fins sanitarios
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