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Incêndios no Brasil: Onças queimadas, tornados de fogo e alerta climático

Um incêndio está queimando desde meados de julho nas remotas áreas úmidas do centro-oeste do Brasil, deixando em seu rastro uma vasta desolação carbonizada.

Uma equipe de veterinários, biólogos e guias locais chegou no final de agosto para percorrer a esburacada estrada de terra conhecida como Rodovia Trans-Pantanal em picapes, procurando salvar o que animais feridos pudessem.

Os jaguares vagavam pelo deserto enegrecido, disseram, morrendo de fome ou com sede, com as patas queimadas até os ossos, os pulmões enegrecidos pela fumaça, eles viram corpos de jacarés, mandíbulas congeladas em gritos silenciosos, o último ato de criaturas desesperadas para se refrescar antes de serem consumidas pelas chamas.

Este grande incêndio é um dos milhares de incêndios que varrem o Pantanal brasileiro, a maior área úmida do mundo, este ano, no que os cientistas do clima temem que possa se tornar um novo normal, ecoando o aumento dos incêndios causados ​​pelo clima da Califórnia à Austrália.

O Pantanal é menor e menos conhecido que sua famosa prima, a selva amazônica, mas as águas normalmente abundantes e a localização estratégica da região imprensada entre a floresta tropical, os vastos campos do Brasil e as florestas secas do Paraguai a tornam um ímã para os animais.

Os incêndios agora estão ameaçando um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, dizem os biólogos, o Pantanal abriga cerca de 1.200 espécies de animais vertebrados, incluindo 36 ameaçados de extinção, em toda essa paisagem geralmente exuberante de 150.000 quilômetros quadrados (57.915 milhas quadradas) no Brasil, pássaros raros voam e a mais densa população de onças do mundo vagueia.

O fogo não é novo, por décadas, os fazendeiros usaram as chamas para devolver nutrientes ao solo de forma barata e renovar o pasto para o gado de corte, mas essas chamas, alimentadas pela seca, agora queimam com força histórica, correndo pela vegetação ressequida, os maiores incêndios no Pantanal neste ano são o quadruplicar do maior incêndio na floresta amazônica do Brasil, mostram satélites da NASA.

Um recorde de 23.490 quilômetros quadrados foi queimado em 6 de setembro quase 16% do Pantanal brasileiro, de acordo com uma análise da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

No mês passado, a Reuters testemunhou um incêndio que atingiu a floresta e o pasto perto do portão turístico de Poconé, no estado de Mato Grosso, no Brasil, o sopro de ar sugado pelas chamas transformou um vento forte em um tornado de fumaça. A temperatura no solo subiu para 46,5 Celsius (115,7 Fahrenheit).

Dorvalino Conceição Camargo, um lavrador de 56 anos com um chapéu de palha comum entre os vaqueiros locais, ajudou a conter as chamas.

Suando com o esforço, Camargo disse que nunca tinha visto fogo tão forte.

“Tudo está sofrendo”, disse ele.

Camargo lembra de ter navegado nas águas ainda criança em canoas quadradas, de volta ao rancho onde trabalha, ele mostrou a marca d’água da fazenda, 70 centímetros (2,3 pés) acima do solo entalhada no poste de um curral de gado, mesmo em um ano seco é normalmente cerca de metade disso, disse ele.

Este ano, as enchentes nunca vieram. Apenas um pouco de água se acumulou em uma vala próxima, disse ele. Agora, com a evaporação da água na estação seca, o rio Paraguai, que atravessa o Pantanal, atingiu seu ponto mais baixo desde 1973, de acordo com Julia Arieira, pesquisadora de clima da Universidade Federal do Espírito Santo.

Os cientistas atribuem a seca ao aquecimento do Oceano Atlântico, logo acima do equador, que está retirando a umidade da América do Sul e a enviará para o norte, provavelmente na forma de furacões mais fortes.

O cientista da NASA Doug Morton disse que este fenômeno é causado por mudanças na temperatura do oceano conhecidas como Oscilação Multidecadal do Atlântico, o equivalente do Oceano Atlântico ao El Niño no Pacífico, ao contrário do El Niño, que normalmente acontece a cada 2-7 anos, a oscilação alterna entre quente e frio aproximadamente a cada 30-40 anos.

Quando esquenta, como desde a década de 1990, é mais provável que ocorra o aquecimento do Atlântico Norte tropical, contribuindo para secas e incêndios sul-americanos.

As mudanças nas temperaturas dos oceanos são “um provável fator das condições de seca que vimos até agora neste ano no Pantanal”, de acordo com Morton, que lidera o laboratório de ciências biosféricas da NASA.

Morton disse que o local quente também pode estar contribuindo para mais seca na parte sul da Amazônia, onde os incêndios provavelmente atingiram o máximo em 10 anos em agosto; e nos pântanos da Argentina, onde as chamas são as piores desde 2009.

Mais preocupante ainda, Morton teme que o aquecimento global possa interromper a Oscilação e deixá-la permanentemente na fase quente, contribuindo para mais incêndios.

Mesmo que isso não aconteça, os cientistas temem que o aumento da temperatura global por conta própria tornaria as grandes queimadas cada vez mais comuns.

A destruição da floresta amazônica ao norte está exacerbando a seca no Pantanal no longo prazo, disse Philip Fearnside, ecologista do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia do Brasil, isso ocorre porque as árvores da selva reciclam a chuva e empurram a umidade de volta para o ar como vapor d’água, que os ventos carregam para as regiões vizinhas nos chamados rios voadores.

O desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% nos 12 meses até julho, em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com dados preliminares do Inpe, agência governamental de pesquisas espaciais.

Sob o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, o Brasil também enfraqueceu a fiscalização ambiental.

A assessoria de imprensa de Bolsonaro encaminhou perguntas ao Ministério do Meio Ambiente, que não respondeu a um pedido de comentários.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, visitou o Pantanal em agosto, dizendo que as agências ambientais federais enviaram cinco aeronaves e funcionários adicionais para ajudar os mais de 100 bombeiros estaduais que lutam contra as chamas.

“Os incêndios estão causando grandes prejuízos à fauna, à flora e à região do Pantanal”, disse Salles.

Animais Mortos

Nenhum ser humano morreu nos incêndios do Pantanal, segundo o tenente-coronel Jean Oliveira do estado de Mato Grosso, que tem liderado todos os órgãos do governo na resposta ao incêndio.

As vítimas, disse ele, são animais selvagens.

Embora não haja uma contagem exata, no mínimo milhares de animais morreram, segundo o biólogo Rogério Rossi, da Universidade Federal de Mato Grosso.

A equipe veterinária itinerante é capaz de salvar apenas uma pequena fração dos animais feridos, muitas dessas criaturas são difíceis de pegar, longe de estradas acessíveis.

O veterinário Jorge Salomão Jr. fez um inventário da carnificina.

“Vimos muitos animais mortos, principalmente répteis, serpentes, jacarés”, disse ele, “Nós vimos muitos cervos mortos, antas mortas, macacos mortos, quati mortos”, um primo dos guaxinins norte-americanos.

Na extensão queimada de 1.347 quilômetros quadrados (520 milhas quadradas) perto da cidade de Poconé, cobras mortas são vistas a cada poucos metros.

A guia local Eduarda Fernandes, que está trabalhando com a equipe de resgate, vagou pela área com os pés afundando na fuligem.

Ela pegou uma cobra petrificada no fogo, ele havia mordido a própria carne, o que um biólogo disse ser provavelmente uma reação involuntária, pois buscava qualquer forma de escapar da dor de ser queimado vivo.

Questionada sobre o que ela achava que aconteceu, Fernandes respondeu: “Dor. Desespero.”

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