Energia

Geração termelétrica brasileira cresce acentuadamente

A geração de energia termelétrica no Brasil quase dobrou em um ano, saltando de 7.881MWa para 14.279MWa da carga total de energia, de acordo com os últimos dados disponíveis do operador de rede nacional ONS  compilados pela BNamericas.

Na última quinta-feira, a participação da termelétrica na carga elétrica do país (69.572 MWa), incluindo as usinas nucleares de Angra 1 e 2, atingiu 20,5%, ante 13,8% um ano antes.

O aumento no uso de energia térmica reflete a severa seca que o Brasil experimentou nos últimos meses, com a menor precipitação em mais de 90 anos nas áreas de alguns de seus principais reservatórios hidrelétricos. Segundo especialistas locais, o risco de racionamento de energia é uma realidade.

A situação dos reservatórios hidrelétricos é mais crítica no subsistema sudeste / centro-oeste, onde o nível de armazenamento de energia (EAR) é de 32,2%.

Diante do cenário alarmante, as autoridades foram obrigadas a despachar mais energia termelétrica, que é mais cara.

Como resultado, a fiscalização de energia elétrica Aneel  anunciou na sexta-feira o sistema tarifário de bandeira vermelha (nível 2) para junho, com um custo de 6,243 reais (US $ 1,19) por 100 kWh.

“Junho começa com os principais reservatórios do SIN [Sistema Interligado Nacional] em níveis mais baixos para esta época do ano, o que aponta para um horizonte de redução da geração hidrelétrica e aumento da produção termelétrica. Essa situação pressiona os custos relacionados ao risco hidrológico (GSF) e ao preço da energia no mercado de curto prazo (PLD) ”, afirmou o regulador em nota.

Em 27 de maio, a geração hidrelétrica respondia por 66,1% (45.969MWa) da carga elétrica total do Brasil, uma queda de 16,8 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Por outro lado, a participação da energia eólica aumentou significativamente no ano passado, atingindo 12,2% da carga nacional (8.453 MWa) na última quinta-feira, de 2,38% (1.360 MW) em 27 de maio de 2020.

Geração de energia em 27 de maio de 2020/2021. Fonte: BNamericas com base em dados do ONS. 

“A energia eólica tem uma importância específica porque é complementar à energia hidrelétrica, já que a época do ano com menos chuvas é a dos melhores ventos, o que ajuda a preservar os reservatórios justamente quando são mais necessários”, Elbia Gannoum, CEO da local Associação de energia eólica Abeeólica, disse ao BNamericas.

“Desde 2013, a energia eólica permitiu que o sistema nordestino se tornasse ainda um exportador de energia durante a temporada de ventos mais fortes e, em dias recordes, a energia eólica já responde por 17% do consumo do SIN.”

Paulo Arbex, presidente da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas Abrapch, disse ao BNamericas que esta é uma crise “autoimposta”, já que o Brasil, que responde por 12% da água doce mundial, parou de construir hidrelétricas com reservatórios na década de 1990.

“Só há uma solução para a crise hídrica: o Brasil precisa voltar a construir pequenas e grandes hidrelétricas com reservatório”, disse, destacando que o custo da termelétrica é até dez vezes maior do que o das hidrelétricas.

Larissa Rodrigues, gerente de projetos e produtos da organização brasileira sem fins lucrativos com foco na sustentabilidade Instituto Escolhas, disse ao BNamericas que o Brasil deve priorizar as usinas eólicas, solares e de biomassa, ao mesmo tempo em que aprimora a gestão dos reservatórios de água.

“Aumentar o uso de termelétricas, como previsto na privatização [estatal] da Eletrobras … só vai encarecer a conta de luz para o consumidor”, afirmou.

Rodrigues destacou que os custos ambientais das térmicas reduzem sua rentabilidade. “Quando as emissões de gases e o uso da água são levados em consideração, não há retorno para o investidor. Então o consumidor vai pagar duas vezes, considerando a questão do clima ”.

De acordo com o ONS, 91 termelétricas geraram energia em 27 de maio. As 10 principais foram PQU SPSP TERM (1.298,44MWa), Angra 2 (1.214,64MWa), Norte Fluminense (823,98MWa), Angra 1 (647,38MWa), Termopernambuco (525,91 MWa), B. Fluminense (523,38MWa), TermoRio (433,84MWa), UTE Mauá 3 (368,37MWa), PQU MGMG TERM (346,08MWa) e UTE Pampa Sul (344,83MWa).

Outras 100 termelétricas estavam fora de operação no mesmo dia. 

E 104 termelétricas, totalizando 8GW de capacidade, estão previstas para entrar em operação nos próximos anos, principalmente nas regiões Norte e Sudeste. Nessa lista está a Marlim Azul (566MW), pertencente a um consórcio formado pelo Pátria Investimentos, Shell e Mitsubishi Hitachi, e Gás Natural Açu GNA I (1,3GW) e GNA II (1,6GW) no porto do Açu, ambos no Rio de Janeiro Estado.

CRESCIMENTO DA DEMANDA

Enquanto isso, o ONS prevê um aumento de 6,6% na carga de energia nacional em junho em relação ao ano anterior, impulsionado pelas expectativas de crescimento econômico para o resto do ano, disse a operadora da rede em um comunicado.

A previsão de carga indica que a região Norte deve expandir 8,8%, para 5.852MWa. Em seguida, vem o Nordeste, com aumento de 7,7% para 10.617MWa, seguido do Sudeste / Centro-Oeste, com 6,3% para 38.005MWa. O sul está projetado para ver um consumo 5,7% maior, com 11.317 MWa.

Ao final de junho, o volume dos reservatórios deve atingir 83,3% da capacidade na região Norte; 69,8% no sul; 54,2% no Nordeste; e 28,8% no Sudeste / Centro-Oeste, de acordo com o ONS.

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