Política

EUA devem reagir com seriedade se Bolsonaro recusar derrota, diz Arturo Valenzuela

O diplomata americano Arturo Valenzuela se diz otimista com o futuro da democracia no Brasil, apesar das dificuldades atuais, e acredita que qualquer tentativa de ruptura será levada muito a sério, tanto pelos brasileiros quanto por países como os Estados Unidos —por ruptura, entender- uma recusa do presidente Jair Bolsonaro (PL) em aceitar uma eventual derrota nas urnas.

“É preciso um esforço constante para fortalecer as instituições. Há uma certa fragmentação das forças políticas no mundo, há uma falta de coesão, mas estou confiante de que veremos forças se unindo – e isso também acontecerá no Brasil”, avalia.

Valenzuela, 78 anos, era o principal nome do Departamento de Estado para a América Latina no início do governo Obama e ajudou na campanha do atual presidente Joe Biden. Hoje, ele é professor emérito da Universidade de Georgetown.

O ex-secretário participa nesta quarta-feira (13), às 18h, de um debate virtual sobre as relações entre EUA e Brasil no Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). O centro está lançando um projeto de debates e estudos sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, sob coordenação de Sérgio Amaral, ex-embaixador em Washington.

Como você avalia a atual relação entre Brasil e EUA, especialmente à luz da distância entre Biden e Bolsonaro? A relação é muito profunda. Precisamos fazer uma distinção entre o que é a relação EUA-Brasil em uma ampla gama de questões e as diferenças que podem existir entre os dois chefes de Estado neste momento específico.

A relação tem sido muito forte nos últimos tempos: envolve comércio, investimento, tecnologia, mudança climática, educação. No longo prazo, continuará a haver uma relação forte, os dois países têm muito em jogo. O fato de o Brasil comprar fertilizantes da Rússia não se compara aos investimentos extraordinários que o setor privado norte-americano tem no Brasil nas mais diversas áreas.

Espero que possamos voltar a uma agenda onde falemos de interesses comuns em termos de educação, inclusão social, comércio, investimento, direitos humanos e democracia. O mais importante agora é a paz e a segurança.

A questão não é se o Brasil está apenas se afastando dos EUA, mas o país está claramente se afastando significativamente de seus tradicionais aliados na Europa. Estes são tempos difíceis, não algo que eu já experimentei. É catastrófico o que está acontecendo na Ucrânia hoje. Não podemos deixar esse tipo de coisa continuar, não é hora de errar.

Os EUA devem Os EUA não vão dizer algo como “ok, discordamos de você e tentaremos fazer ajustes”. Estamos enfrentando um momento crítico em que você não pode usar um argumento como “bem, olhe, precisamos proteger as importações de fertilizantes”. Isso inclui o que vem acontecendo na ONU, onde a grande maioria dos países decidiu que a Rússia precisa ser suspensa do Conselho de Direitos Humanos.

Uma das preocupações do mundo atual é o avanço de lideranças autoritárias e populistas, de esquerda ou de direita. É muito revelador que os dois maiores países da América Latina, México e Brasil, tenham se abstido na votação para suspender a Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ambos têm líderes populistas, um à direita e outro à esquerda.

Abster-se desse tipo de pergunta é algo que exigirá muitos reparos mais tarde. Cabe ao povo brasileiro decidir exatamente como deve ser sua liderança no futuro, assim como os EUA decidiram que o governo anterior era aquele que não poderia mais ser aceito.

Como os EUA e o Brasil podem se alinhar mais em questões de paz e segurança? Houve momentos em que os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, criaram relações com países latino-americanos que configuraram esforços para afastar o que era visto como uma ameaça comunista — um dos primeiros golpes de estado ocorridos de fato foi no Brasil. Mas com o fim da Guerra Fria, iniciou-se uma nova era de solidificação das instituições democráticas. Conheço o Brasil o suficiente para saber que a maioria das pessoas apoia isso.

Precisamos deixar claro que não se trata de os EUA dando o exemplo para o mundo. Os EUA mostraram ter alguns problemas significativos com a própria democracia, e isso requer mudanças e reformas. O Brasil enfrentará o mesmo tipo de coisa. Portanto, espero que possamos voltar a um ponto em que, junto com os europeus e a América Latina, possamos colocar o foco na tentativa de reconstruir as instituições, para que tenhamos um mundo mais pacífico.

Jair Bolsonaro já sinalizou que pode não aceitar o resultado das eleições de 2022. Como você avalia que os EUA reagirão neste caso? Acho que não só os EUA, mas os países do mundo que se preocupam com questões como essa vão levar isso muito a sério, assim como muitos brasileiros.

É um erro pensar que existe um processo que leva do subdesenvolvimento às instituições perfeitamente desenvolvidas. É preciso um esforço constante para fortalecer e renovar as instituições. Há uma certa fragmentação das forças políticas no mundo, há uma falta de coesão, mas estou confiante de que veremos forças se unindo. E eu certamente espero que seja o caso do Brasil também

Eu sou otimista. Trabalhei no Brasil como pesquisador acadêmico por muitos anos. Fui convidado a ir ao Brasil quando a democracia foi restabelecida, para discutir como fortalecer as instituições. Estou muito confiante de que esse momento difícil será superado, mas não será fácil. Vemos uma fragmentação das instituições e falta de partidos fortes e coesos.

Brasil e EUA enfrentam inflação alta. Os dois países poderiam se ajudar nessa questão? O problema fundamental é que as cadeias de suprimentos foram interrompidas, em parte por causa das inseguranças no mundo – há a grande ironia de que a inflação é agora um produto do colapso das cadeias de produtos petrolíferos. Biden mencionou várias vezes que precisamos ir além da dependência deles.

Temos de enfrentar estas questões gémeas, as alterações climáticas e o fornecimento de energia. Não será feito da noite para o dia, mas as fundações estão no lugar.

Você vê espaço para mais parcerias econômicas? São dois grandes países que buscam fortalecer seus laços econômicos. Sempre se fala em ter ou não um acordo de livre comércio nas Américas, e o Brasil ficou de fora. E o Mercosul não é mais o que era. Os EUA têm relações importantes com países do Hemisfério Ocidental, e todos se beneficiariam disso. Não é uma questão de ser o quintal do Brasil ou dos EUA, esse tipo de mentalidade não é o que precisamos no século 21.

Como você avalia a atuação de Biden em relação à Venezuela? Cada governo enfrenta uma ampla gama de desafios em todo o mundo e não pode resolver todos os problemas. Mas isso não significa que não haja preocupações com uma situação como a da Venezuela.

O que esse governo notou e o que não havia sido notado pelo anterior? [de Donald Trump] é que não se trata de fazer algo como incentivar um golpe militar e isso resolveria a questão. Alguns dos erros do governo anterior tornaram mais difícil apoiar a oposição na Venezuela, que está dividida. A Venezuela é essencialmente uma economia falida, um estado falido, que vai exigir muito trabalho. Não vimos um colapso tão massivo de um país na América Latina, talvez desde o caso do Paraguai após a guerra com a Tríplice Aliança no século XIX. Mas isso não significa que houve negligência, apenas que as políticas adotadas antes estavam incorretas.

O Brasil poderia trabalhar com os EUA na questão? Há um interesse nacional significativo para o Brasil e os EUA no assunto. Quando eu era secretário adjunto [de Estado] eu tinha uma relação muito boa com os ministros da defesa [do Brasil]. Eles estavam tentando ver se a situação na Venezuela poderia ser resolvida e se havia o risco de um conflito potencial entre a Venezuela e a Colômbia. Havia também preocupação com a crise migratória.

Como você avalia a forma como Biden lidou com a questão da imigração Houve muitos danos às políticas da área no passado e é difícil reajustá-las. Há uma crise porque muitas pessoas querem deixar seus países. Estamos vendo um país europeu sendo bombardeado até a submissão, onde os alvos não são as Forças Armadas, mas o povo. Há países com organizações criminosas significativas, tráfico de drogas, problemas de regressão econômica.

Os EUA são uma nação de imigrantes e devemos continuar sendo, de portas abertas. O governo Biden está comprometido com isso, mas você não pode ir de uma coisa para outra tão rápido, essas políticas levam muito tempo para serem implementadas.

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