Energia

Empresas de energia ganham força com quase fim da crise hídrica

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Fator relevante para a queda do Ibovespa no segundo semestre de 2021, a crise hídrica tem dado claros sinais de desaceleração, o que abre espaço para uma correção em diversos setores da bolsa brasileira que ainda não se anteciparam ao novo cenário. A melhora do cenário hídrico, portanto, sustenta a perspectiva de um desempenho mais forte à frente do principal índice de ações do Brasil, influenciando não apenas o segmento de energia, mas também as ações ligadas à economia nacional, que são sensíveis à curva de juros e à inflação e pode sentir as mudanças no ambiente.

De acordo com o último boletim mensal divulgado pelo ONS, o operador da rede nacional do Brasil, os níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste devem continuar se recuperando após fortes chuvas entre 8 e 14 de janeiro e chegar ao final de no mês com 40% da capacidade, enquanto as regiões Norte, Nordeste e Sul devem atingir 73,2%, 70,2% e 34,8%, respectivamente. Com base nisso, os gestores esperam que a situação continue melhorando pelo menos até o final do verão no Brasil, o que pode gerar mudanças nas carteiras de ações.

O impacto mais forte pode ser sentido tanto pelas empresas de geração quanto de distribuição, disse Marcelo Sandri, analista do setor elétrico da Perfin Investimentos. “As empresas de geração hidrelétrica sofreram muito no ano passado”, disse ele. Ele explica que, quando as usinas não entregam a quantidade de energia acordada, precisam comprá-la no mercado livre e, com os altos preços da energia elétrica, as margens acabam sendo apertadas. Por outro lado, as térmicas tiveram um ano positivo em 2021, pois o complexo térmico foi ativado para compensar reservatórios baixos.

Com fortes chuvas nos reservatórios, o cenário para as empresas de geração hidrelétrica e térmica deve se reverter em 2022, argumenta Sandri. “Acreditamos que o setor elétrico em bolsa ainda não reagiu, em termos de preços, a uma notícia tão positiva para o segmento. A chance de um racionamento de energia é próxima de zero. Você removeu um risco de cauda muito grande, que era uma nuvem que pesou muito no ano passado”, disse Sandri. As ações preferenciais da Cesp, por exemplo, caíram 10% no segundo semestre de 2021 e subiram 6,04% neste ano.

O analista ainda vê um cenário difícil para as distribuidoras, mas vê uma situação melhor para elas do que no ano passado. “Por mais que haja um efeito de tranquilidade do ponto de vista do fornecimento de energia, provavelmente veremos reajustes elevados por conta do ônus da inflação e altos custos de energia elétrica no ano passado devido ao uso de termelétricas.” Com isso, segundo ele, crescem os riscos de inadimplência e a propensão ao roubo de energia.

Além da melhora no cenário hídrico no Brasil devido à característica de empresas habitacionais que são boas pagadoras de dividendos e que possuem fluxo de caixa estável, disse Sandri, o setor elétrico pode trazer bons retornos aos investidores este ano. “É um setor defensivo e isso vai ajudar muito em um ano que se espera ser de alta volatilidade nos ativos financeiros locais por causa das eleições”, disse.

Na mesma linha, Guto Leite, gestor de ações da Western Asset, disse ter encontrado métricas interessantes em algumas ações de distribuição e geração. “Além das transmissoras, que já tiveram um bom desempenho no ano passado e não são impactadas por esse tipo de ocorrência, há empresas com números atrativos. Há também microfatores que precisam ser analisados, como a privatização da Eletrobras ou a reestruturação da Cesp”, disse. O Sr. Leite acrescentou que alguns dos fundos de sua empresa já possuíam títulos da Equatorial e devem aumentar sua exposição ao setor nos próximos meses.

Outro setor que pode sofrer alterações com os índices pluviométricos é o setor de mineração e, consequentemente, a siderurgia. As chuvas reduzem a produtividade do setor, que é maior no segundo semestre, diz Isabel Lemos, gerente da Fator Ações. Assim, o que os investidores costumam monitorar são possíveis gargalos de abastecimento e problemas operacionais, como rupturas de barragens. “Uma possível redução na oferta pode pressionar os preços no curtíssimo prazo e, em caso de quedas drásticas, exigir uma nova avaliação do ativo”, disse Lemos.

Após paralisar por alguns dias as atividades em minas localizadas em Minas Gerais, Vale e Usiminas já retomaram a produção, ainda que de forma gradual. Mas o retorno também depende da capacidade de seus parceiros logísticos, já que parte da malha rodoviária e ferroviária do estado também sofreu com as fortes chuvas.

Considerando esse fator, William Leite, gerente da Helius Capital, fez movimentos para mitigar potenciais impactos de curto prazo. “Acreditamos que os desenvolvimentos dos últimos dias não serão tão relevantes para as empresas do setor em termos corporativos, mas fizemos algumas mudanças para evitar esses possíveis eventos de baixa probabilidade”, disse. O Sr. Leite explicou que trocou parte da exposição a mineradoras locais por rivais australianas e montou uma estrutura de hedge com derivativos.

Há também, de forma mais indireta, um possível impacto em títulos vinculados à economia nacional, sensíveis à curva de juros e à inflação. Os analistas discordam sobre quando isso ocorrerá, mas uma provável mudança nas bandeiras tarifárias nos próximos meses, o que reduziria as contas de energia elétrica, pode ajudar a reduzir o impacto nos preços.

Rafael Cota Maciel, gestor de ações da Inter Asset, acredita que o cenário ainda é de pressão inflacionária em nível global, mas as chuvas e uma variante menos letal do coronavírus podem ajudar a acalmar um pouco o mercado local nos próximos meses.

Renan Vieira, gerente da Taruá Capital, pensa da mesma forma, mas diz que a busca por títulos de baixo preço tem sido cada vez mais dinâmica. “Vemos muitos títulos sendo vendidos com desconto, mas o ambiente ainda é desafiador. Com os fundos ainda sofrendo com saques e precisando vender ativos, a situação exige uma gestão ativa e um olhar atento aos fundamentos das empresas”, disse.

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