Energia

Eletricidade: operação deve acompanhar as mudanças climáticas

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O Brasil precisa atualizar a forma como o setor de eletricidade é planejado e operado para lidar com os novos riscos que surgem no mercado com as mudanças climáticas e a transição energética, segundo estudo do Instituto Acende Brasil, think tank focado no setor. O relatório indica que a indústria precisará contar com análises de cenários mais sofisticadas que levem em consideração novas ameaças para garantir a segurança do fornecimento.

Efeitos climáticos severos ou extremos, como secas, inundações e ondas de calor, e o consequente incentivo à adoção de fontes renováveis ​​para ajudar a combater as mudanças estão tornando mais complexa a gestão do setor.

“É mais difícil planejar do que no passado, quando havia uma relação muito consistente entre crescimento econômico e consumo de energia. Não existe mais essa convicção, principalmente por causa da geração distribuída, que vem crescendo muito”, disse Richard Lee Hochstetler, chefe de assuntos econômicos e regulatórios da Acende Brasil.

Os eventos climáticos já estão afetando a operação do setor. Em 2021, o Brasil passou por uma seca que reduziu o volume de água nos reservatórios hidrelétricos e gerou incertezas sobre a capacidade de fornecimento de energia nos horários de pico de consumo. Desafios semelhantes são vivenciados em outras partes do mundo. Esta semana, por exemplo, uma onda de calor na Argentina causou cortes de energia em Buenos Aires.

Ao mesmo tempo, o crescimento de fontes renováveis ​​no mix de geração de energia ajuda a diversificar o sistema elétrico, mas também traz novas incertezas ao setor, uma vez que a geração dessas usinas varia ao longo do dia e de acordo com as condições climáticas.

“Transformações como o crescimento de fontes incontroláveis ​​e mudanças no comportamento da carga estão acontecendo em um ritmo mais rápido do que a capacidade prática de adaptação do planejamento”, disse o head da Acende Brasil, Cláudio Sales.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o operador de rede nacional ONS têm buscado se adequar ao novo momento. Analistas observam, no entanto, que as mudanças precisam ser mais rápidas, principalmente para evitar mais pressão sobre os preços da energia.

Um exemplo é a atualização permanente do sistema informatizado que calcula as usinas a serem despachadas pelo ONS. Especialistas apontam que as mudanças no modelo computacional devem ser mais rápidas, pois esse modelo é muito otimista nas estimativas da capacidade de geração das hidrelétricas por não considerar que a produtividade diminui à medida que os reservatórios são esvaziados.

Thiago Barral — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Thiago Barral — Foto: Leo Pinheiro/Valor

O chefe da EPE, Thiago Barral, concorda que o aumento das incertezas trouxe maior complexidade à elaboração dos cenários. Para ele, o papel do planejamento se torna ainda mais importante nesse contexto. “Cenários não são projeções ou previsões, mas formas de explorar futuros plausíveis, a fim de melhor se preparar para enfrentar essas incertezas e reduzir arrependimentos decorrentes das decisões de hoje que impactam nossas alternativas futuras”, afirmou.

O Sr. Barral destacou que a EPE passou a utilizar cenários que testam mudanças nas premissas ou variáveis ​​do setor, além das tradicionais projeções econômicas de referência no Plano Decenal de Expansão Energética, publicação anual que indica as perspectivas de expansão do setor de energia setor ao longo de uma década. Então, perguntas como “E se o custo de uma determinada fonte cair mais rápido do que o estimado?” e “O que acontece se a disponibilidade de água for estruturalmente reduzida em uma determinada região?” foram incorporados ao planejamento de longo prazo.

“Também não devemos esquecer que estamos todos sujeitos à ocorrência dos chamados cisnes negros, eventos de alto impacto ou eventos raros aparentemente improváveis, que desafiam as expectativas históricas, científicas, financeiras ou tecnológicas normais”, disse Barral.

Para o ONS, nesse novo contexto, também será necessário antecipar algumas discussões regulatórias para a modernização do setor, como o uso de usinas híbridas, que combinam mais de uma fonte, e recursos de armazenamento. Projetos desse tipo, segundo a operadora, podem ajudar a dinamizar o sistema de transmissão elétrica, que também passa por mudanças com o crescimento da geração renovável em novas regiões.

Outro tema que merece destaque, segundo o ONS, é a geração distribuída, na qual os próprios consumidores geram energia, principalmente por meio de painéis fotovoltaicos em residências, prédios e empresas. O Sr. Hochstetler concorda que o crescimento deste campo será um desafio para operação e planejamento, pois poderá levar a uma queda no consumo do Sistema Interligado Nacional (SIN) ao mesmo tempo em que a demanda total por energia continua crescendo no país.

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