Economia

Economia brasileira entra em recessão técnica em meio à inflação acelerada

Inflação economia

A economia brasileira entrou em recessão técnica com queda de 0,1% no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior, a segunda retração consecutiva nessa base de comparação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No período anterior, de abril a junho, o PIB recuou 0,4%.

Segundo analistas, a economia está estagnada sem perspectiva de melhora substancial no futuro próximo. O resultado do terceiro trimestre, um pouco abaixo das expectativas, levou a cortes nas projeções para o PIB deste ano, que agora estão mais perto de um crescimento de 4,5% do que de 5%, que mal recupera a perda de 3,9% em 2020.

Para o restante do ano e também em 2022, a economia brasileira continuará lidando com a escassez de insumos na indústria, inflação acelerada, que corrói a renda das famílias, aumento dos juros e mercado de trabalho ainda fraco, com geração de precários empregos de baixa remuneração. A disseminação da variante omicron também traz mais incertezas sobre a evolução da pandemia e dos negócios.

Do lado da oferta, a avaliação geral foi que a agropecuária foi a principal responsável pela queda do PIB no terceiro trimestre, com queda de 8% em relação ao trimestre anterior. A indústria estava estável. Conforme esperado, os serviços aumentaram 1,1%, beneficiados pela reabertura econômica proporcionada pelo avanço da vacinação contra a Covid-19.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que mais do que o resultado da agricultura, foi a economia em geral que não entregou o suficiente, até mesmo em serviços, que deveria ter crescido mais. “Não se pode culpar a agricultura pela queda, mas sim buscar explicações para por que uma economia emergindo da pandemia apresentou resultados tão fracos na indústria e nos serviços”, disse ele.

Do ponto de vista da demanda, o setor externo e a redução dos estoques pressionaram o PIB do terceiro trimestre, enquanto o consumo das famílias, com alta de 0,9%, e o consumo do governo, com alta de 0,8%, deram impulso positivo.

A variação dos estoques tirou 0,51 ponto percentual do resultado do período, segundo Alberto Ramos, chefe de pesquisas para a América Latina do Goldman Sachs. Ainda de acordo com o Sr. Ramos, o setor externo teve contribuição líquida negativa e subtraiu 0,29 ponto do crescimento do período.

O resultado do PIB do terceiro trimestre indica que a atividade econômica está perdendo fôlego mais rápido do que o esperado no país, disse Natalie Victal, economista da Garde Asset Management. “É a mensagem principal. No total, o PIB do segundo semestre será pior do que o esperado meses atrás ”, disse ela. E os sinais negativos para o quarto trimestre representam um risco de queda para o crescimento projetado de 4,7% em 2021, disse Victal.

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) revisou a projeção de crescimento do PIB de 2021 de 4,8% para 4,6% e a Economia de Capital revisou a estimativa de 4,8% para 4,5%, após a divulgação dos dados do terceiro trimestre.

As novas revisões para o próximo ano – que vêm ganhando impulso desde o segundo trimestre – ainda não são generalizadas, mas existem. A ASA Investments cortou sua expectativa de PIB para 2022 de zero para uma queda de 0,5%, dizendo que a incerteza fiscal sobre a situação fiscal já estava pesando nas projeções para a atividade do próximo ano, algo que a recessão técnica apenas se aprofundou.

A ASA Investments também revisou o PIB do quarto trimestre deste ano para uma queda de 0,1% de um aumento de 0,3%. Com inflação de dois dígitos, o cenário, afirma a equipe de economistas do ex-Tesouro Carlos Kawall, é de estagflação.

A corretora Renascença revisou a estimativa de crescimento em 2021 de 4,8% para 4,7%, e em 2022, de 0,3% para zero. O Santander reduziu suas projeções de crescimento do PIB de 2021 a 2023. Enquanto os dados abaixo do esperado no terceiro trimestre levaram à redução da estimativa de 2021 de 4,9% para 4,7%, o aumento das taxas de juros e a piora das condições financeiras levaram para uma redução das estimativas do PIB para 2022 para 0,7% de 1%, e para 2023, para -0,2% de zero.

Ana Paula Vescovi — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Ana Paula Vescovi — Foto: Silvia Zamboni/Valor

“Para 2022, os atenuantes serão a recuperação gerada pela reabertura do setor de serviços, a recuperação do mercado de trabalho e o fortalecimento de setores menos cíclicos ligados às commodities”, afirmou a economista-chefe Ana Paula Vescovi, em nota.

Para Rodolfo Margato, da XP, a menor contribuição da reabertura da economia e da piora das condições financeiras, além de níveis mais fracos de confiança do consumidor e do empresário, devem pesar sobre o setor de serviços em 2022. Para o quarto trimestre, XP espera 0,5% crescimento do PIB de serviços, o que indica continuidade da recuperação, mas perda de tração frente ao aumento de 1,1% no terceiro trimestre. Segundo o IBGE, o segmento de “outros serviços”, que reúne atividades voltadas para o lar, ainda está 3,8% abaixo do quarto trimestre de 2019, antes da pandemia. Isso significa que haveria algum espaço para crescimento.

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