Economia

Dólar mantém tendência de alta e tudo indica que só tem a crescer

O Dolar, moeda norte-americana está se consolidando em um novo patamar, acima de R$ 4,09 e previsão de analistas ouvidos pelo EM é que continue valorizada por um período longo.

Em meio à novela da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que desacelerou o ritmo de crescimento das trocas globais nesses dois anos, o sobe do mercado de câmbio ficou mais acentuado com o clima de instabilidade generalizada na América Latina. O real acabou seguindo a tendência de queda das moedas dos países vizinhos, que acabaram sendo afetadas pela derrocada dos preços das commodities devido à demanda mais fraca. O peso argentino continua liderando o ranking de desvalorização, de pouco mais de 37%, enquanto enfrenta uma forte crise financeira, conforme dados da Necton Investimentos.

A divisa brasileira figura entre as que mais perderam valor na região, ao lado do peso chileno e do peso uruguaio, e está se consolidando em um novo patamar, acima de R$ 4. A maioria dos analistas ouvidos pelo Estado de Minas acredita que a tendência é que o dólar continue valorizado por um período mais longo, como sinalizou o ministro da Economia, Paulo Guedes, caso não ocorra uma forte entrada de investimentos estrangeiros no país no ano que vem.

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, ao realizar o quarto corte do ano na taxa básica de juros (Selic), de 5% para 4,5% ao ano na última quarta-feira, informa no comunicado as projeções de inflação dentro da meta para dólar de R$ 4,15, em 2019, passando para US$ 4,10, em 2020; e para R$ 4, em 2021.

O economista-chefe da Necton, André Perfeito, cita três motivos conjunturais para esse dólar mais valorizado. “Primeiro, a balança comercial tende a ficar negativa no sentido de que a situação difícil na Argentina deve continuar e isso afeta as exportações brasileiras. Segundo, os juros vão ficar baixos no Brasil, e, com isso, há menos entrada de dólares no país. E, por último, ainda não há uma certeza de que haverá investimento estrangeiro entrando no país com concessões e privatizações, que ainda não deslancharam”, explica.
Como o mundo vem crescendo menos, as exportações brasileiras devem continuar em queda, e, a oferta de dólar deve diminuir no mercado doméstico, desvalorizando o real, enumera Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos. “O câmbio virou uma preocupação que não estava no radar”, destaca. Rosa lembra ainda que, no fim do ano, há uma piora natural no saldo em conta-corrente do país com o resto do mundo devido ao fluxo de envios de dividendos de empresas para suas matrizes no exterior e, aliado a isso, há também um movimento de empresas trocando empréstimos externos pelo doméstico, o que tem contribuído para a piora no déficit em conta corrente do país.

INFLAÇÃO

Esse novo patamar do câmbio que parece que veio para ficar ainda não teve impacto grande nos índices de preços, de acordo com o economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Mas ele alerta que um dólar mais alto costuma afetar preços de produtos importados ou indexados ao câmbio, como é caso do pão, de massas, de combustíveis e de passagens aéreas. “A alta do dólar costuma ter impacto imediato dos combustíveis, e, no setor de aviação, representa 30% do custos das companhias aéreas, sem contar leasing dos aviões, que também costuma ser em dólar”, explica.

Pelas projeções do BC, mesmo em um cenário híbrido com a divisa norte-americana constante em R$ 4,20, a projeção de inflação segue comportada, em torno de 4%, 3,7% e 3,7%, respectivamente. Essas taxas estão abaixo das metas de 4,25%, neste ano, de 4%, em 2020, e de 3,75%, em 2021.

Apesar de boas notícias, como o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, com alta de 0,6% na comparação com os três meses imediatamente anteriores, ter ficado acima das projeções do mercado, as projeções de um câmbio mais valorizado foram mantidas. “Houve uma mudança de humor nos últimos dias no mercado, com indicadores mais positivos da economia, que ajudou em uma leve recuperação do real frente ao dólar. Mas a tendência é que o câmbio continue valorizado, acima em torno de R$ 4,10, porque não há uma indicação de que o Banco Central vai interromper uma política atual mais expansionista, mantendo os juros mais baixos. Isso favorece a desvalorização do real”, explica o economista Antonio Madeira, da LCA Consultores.
O economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, avalia que o dólar continuará acima de R$ 4 e ele considera isso menos preocupante do que a questão fiscal. “A desvalorização recente do real frente ao dólar teve mais causas externas do que domésticas e a piora no saldo em conta corrente não é tão preocupante quanto a questão fiscal, que ainda não foi resolvida.”

Na contramão, Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, é um dos poucos que apostam em queda do dólar no ano que vem para menos de R$ 4. “Há um acúmulo de notícias positivas, que estão surpreendendo, com aumento nas previsões de crescimento da economia e isso deverá tirar a força do dólar, que chegou a um patamar fora do ponto”, afirma. Para ele, não há justificativa para a moeda norte-americana ficar acima de R$ 4,15 e o mercado está sabendo separar a economia da política.

Por conta disso, há um descolamento da bolsa em relação ao governo e das declarações polêmicas do presidente e de seus ministros, na visão dele. “A percepção é que a economia está indo no caminho certo. Ela está reagindo, apesar de todas as estripulias de Jair Bolsonaro. E, se a atividade continuar reagindo em 2020, a oposição não terá motivos para criticar o governo, Se houver geração de emprego maior no ano que vem, é possível que o dólar caia para R$ 3,80”, aposta.

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