Economia

Curvas das taxas do Brasil ficam mais inclinadas à medida que os preços dos mercados no banco central, aumentam os riscos fiscais

As curvas das taxas de juros brasileiras se inclinaram na quinta-feira (17), para o nível mais alto em meses, com os comerciantes precificando as taxas oficiais sendo mantidas em baixa por mais tempo e com a crescente incerteza em torno das perspectivas fiscais do governo elevando os rendimentos de longo prazo.

A mudança, que reflete os traders exigindo prêmios mais elevados para os empréstimos ao Tesouro, veio um dia depois de o banco central manter a taxa Selic em um recorde de 2,00% e dobrar para baixo em sua promessa de não aumentá-la por muito tempo.

A diferença entre as taxas de curto e longo prazo aumentou para a maior desde maio, quando a economia e os mercados estavam atolados no pior da crise do COVID-19, por muitas medidas, esses spreads estão agora perto de quebrar até mesmo esses picos históricos.

“O banco central não está aproveitando a orientação que esperava, o problema está mais no lado fiscal do que no monetário”, disse Alexandre Schwartsman, ex-diretor de relações internacionais do banco central.

“As pessoas estão exigindo prêmios de risco mais elevados para manter instrumentos de dívida de longo prazo, não porque o mercado não acredite que o banco central manterá as taxas, mas porque o risco fiscal está aumentando”, disse Schwartsman.

A diferença entre os contratos futuros de juros de janeiro de 2022 e janeiro de 2027 (DIJF27) subiu nesta quinta-feira (17), para 425 pontos base, a maior desde meados de maio.

Em 5 de agosto, o dia da última reunião de política do banco central, quando ele introduziu sua estratégia de ‘orientação futura’, o spread era de 345 pontos base.

Em uma medida mais ampla, a curva de rendimento brasileira que abrange rendimentos de títulos de três meses a títulos de 10 anos foi maior em todos os vencimentos na quinta-feira (17), do que no dia seguinte à reunião de política de agosto, especialmente a partir de três anos.

O Tesouro tem relutado em refinanciar a dívida com esses rendimentos mais elevados, optando, em vez disso, por emitir mais notas ‘LFT’ de taxa flutuante e de curto prazo.

Isso reduz os custos de financiamento no curto prazo porque as taxas de juros oficiais estão em um nível recorde, mas expõe o Tesouro a qualquer aumento da taxa Selic e faz com que ele deva voltar ao mercado com mais frequência para fazer frente às necessidades de financiamento de longo prazo com as de curto prazo.

Essencialmente, esta é uma aposta de que o banco central manterá sua promessa de orientação futura, mas o Tesouro está descobrindo que os investidores estão exigindo cada vez mais compensações para empréstimos de curto prazo.

O Tesouro vendeu apenas 90,5 milhões de reais dos 500 milhões de reais de taxa flutuante, notas ‘LFT’ de três e seis anos em leilão na quinta-feira (17), e voltará ao mercado na sexta-feira.

Este não é, de forma alguma, o primeiro leilão de LFT fracassado neste ano, a necessidade de caixa do Tesouro levou o banco central no mês passado a dar 325 bilhões de reais em um movimento especial permitido se houver “severas restrições de liquidez” nos mercados de financiamento que tornem difícil para o Tesouro tomar empréstimos ou pagar dívidas.

O secretário do Tesouro, Bruno Funchal, disse na altura que se registou um “aumento muito significativo” da dívida a vencer nos próximos 12 meses para 23% do total, principal bandeira vermelha do risco de financiamento de curto prazo.

Com o estoque total da dívida brasileira superando 4 trilhões de reais, isso indicaria mais de 900 bilhões de reais vencendo nos próximos 12 meses.

Além da pesada carga de refinanciamento, o Tesouro também tem que financiar um déficit orçamentário recorde que o governo atraiu em 866 bilhões de reais este ano, e alguns economistas do setor privado dizem que vai acabar ficando perto de 1 trilhão de reais.

“A falta de resposta dos mercados para a orientação futura reflete preocupações sobre as perspectivas fiscais, já que uma deterioração significativa poderia trazer uma moeda mais fraca, pressões inflacionárias e a necessidade de aumentar as taxas de juros mais cedo do que o previsto”, escreveram analistas do Barclays na quarta-feira (17).

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