Economia

Comunidades mais vulneráveis ​​do Brasil enfrentam crise alimentar da COVID

O coronavírus está se espalhando e o número de mortos está aumentando – mas o que mais preocupa os líderes das comunidades isoladas e vulneráveis ​​do Brasil é como alimentar as pessoas agora que o governo retirou sua principal ajuda de emergência.

Ivone Rocha é cofundadora da Semeando Amor, uma organização sem fins lucrativos que distribui alimentos básicos para algumas das pessoas mais pobres de Rio das Pedras, uma das muitas favelas do Rio de Janeiro.

Durante a maior parte do ano passado, eles receberam uma bolsa governamental decente para sobreviver à pandemia, mas isso tudo terminou em 2020, desencadeando um frenesi de pedidos de comida nas favelas.

“As pessoas aqui não têm emprego”, disse Rocha à Thomson Reuters Foundation por telefone. “Agora a ajuda acabou. Meu Deus, o que vai acontecer? ”

Foi em abril que o Congresso aprovou um projeto de lei que estabelecia o estipêndio mensal de $ 600 reais ($ 112) – um pouco mais da metade do salário mínimo do país – comprometendo-se a ajudar as pessoas a sobreviver por três meses durante a pandemia.

Em julho, quase metade dos 210 milhões de pessoas que chamam o Brasil de lar vivia com alguém que estava recebendo o auxílio, mostram dados do governo.

Mesmo antes do COVID-19, cerca de 13 milhões de brasileiros viviam em extrema pobreza e um quarto da população era classificada como abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial, de acordo com dados do governo.

Depois de inicialmente se opor a ele, o presidente Jair Bolsonaro abraçou o programa e o renovou até o final de 2020, enquanto reduzia o total pela metade devido ao que chamou de restrições orçamentárias. Esses cortes ocorreram mesmo com o aumento de infecções e mortes.

O vírus de mutação rápida já matou cerca de 212 mil pessoas no Brasil, mostram os dados, número nacional de mortes superado apenas pelo dos Estados Unidos.

Isolado e exposto

O fim do programa de ajuda atingirá de forma desproporcional os pobres do norte e do nordeste do país, de acordo com um estudo da Tendencias Consultoria, consultoria voltada para a economia.

Aqueles em favelas em comunidades indígenas e em “quilombos” – assentamentos montados por escravos fugidos onde os negros brasileiros vivem de antigas tradições – podem sofrer ainda mais, disseram os ativistas.

Muitos residentes dessas comunidades isoladas durante 2020, indo às cidades apenas para pegar a ajuda de emergência que usaram para obter alimentos e outros itens essenciais.

Sem o dinheiro, alguns serão forçados a sair do isolamento, disse Milene Maia, assessora do Instituto Socioambiental, organização sem fins lucrativos que ajuda comunidades indígenas e quilombolas.

“O que eles nos disseram é que morrem de fome ou morrem de COVID”, disse ela.

Para Andreia Nazareno dos Santos, líder do Quilombo Grossos, no nordestino do Rio Grande do Norte, os próximos meses serão decisivos: se não chover, a safra não crescerá, deixando muitas das 150 famílias da comunidade sem Comida.

Quando chega uma época ruim de chuvas, as pessoas do Quilombo Grossos costumam sobreviver vendendo artesanato ou fazendo bicos na cidade. Ambas as opções agora apresentam o risco de infecção.

“Se não chover, não sabemos o que fazer”, disse dos Santos. “Como essas famílias vão se alimentar sem ajuda de emergência?”

No nordeste da Bahia, a maioria das 38 famílias da Reserva Indígena de Comexatiba recebia a bolsa, disse Rodrigo Mandi Pataxo, professor indígena, e só se aventurava uma vez por mês para buscar as ajudas e comprar o essencial.

Agora eles podem ter que viajar para a cidade para vender suas safras.

“Em breve não saberemos como será a segurança alimentar da comunidade”, disse ele.

As comunidades mais isoladas podem nem saber que o estipêndio acabou, então vão para a cidade à toa, disse Antonio Eduardo Cerqueira de Oliveira, secretário-executivo do Conselho Missionário dos Povos Indígenas.

“Eles não terão (dinheiro) para voltar. Isso vai expô-los ainda mais ao coronavírus ”, disse de Oliveira.

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