Economia

Como EUA e Brasil enfrentam o aumento da gasolina

Enquanto Bolsonaro concorre à reeleição em outubro, Biden e seu partido democrata se preparam para as eleições legislativas de meio de mandato em novembro, nas quais o controle da Câmara e do Senado nos Estados Unidos será redefinido.

Com o preço internacional do petróleo em alta, alimentado pela guerra na Ucrânia, sanções contra a Rússia e a retomada da demanda por energia após a fase mais aguda da pandemia, americanos e brasileiros, além de consumidores de vários outros países, têm vem pagando mais. caro para a gasolina.

Após atingir patamares recordes neste mês, o preço da gasolina nos Estados Unidos registrou leve queda no último domingo (19/06), com média nacional de US$ 4,98 (cerca de R$ 25,56) por galão (equivalente a 3,78 litros) . Na semana passada, esse valor ultrapassou US$ 5 (cerca de R$ 25,66).

O preço médio de US$ 4,98 por galão equivale a US$ 1,31 (cerca de R$ 6,74) por litro. Esse valor, embora considerado alto pelos consumidores americanos, ainda é inferior ao preço pago pelos brasileiros.

Segundo dados divulgados nesta terça-feira (21/06) pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o litro de gasolina nos postos no Brasil chegou a R$ 8,99 na semana passada. O menor valor registrado na pesquisa foi de R$ 6,17. O diesel atingiu R$ 8,63.

Na semana passada, o preço da gasolina nos EUA chegou a mais de US$ 5 o galão.

O preço médio do litro de gasolina ficou em R$ 7,23, um pouco abaixo dos R$ 7,24 da semana anterior. O preço médio do diesel passou de R$ 6,88 para R$ 6,90 no período. Esses valores ainda não refletem integralmente o reajuste anunciado pela Petrobras na sexta-feira (17/06), de 5,18% no preço da gasolina vendida às distribuidoras e de 14,26% para o diesel.

Com o reajuste, o preço médio do litro de gasolina vendido pela Petrobras às distribuidoras passará de R$ 3,86 para R$ 4,06. O valor final pago pelo consumidor é maior, afetado por fatores como impostos e margens de lucro de outros setores da cadeia produtiva.

Nesse cenário, tanto o presidente brasileiro quanto o americano vêm reagindo aos aumentos de preços. Na segunda-feira (20/06), três dias após o novo reajuste, a Petrobras anunciou que seu presidente, José Mauro Coelho, renunciou ao cargo.

Coelho havia sido demitido pelo presidente Jair Bolsonaro no mês passado, em meio a pressões do governo, que é acionista majoritário da empresa, para conter os preços dos combustíveis e não repassar a alta internacional aos consumidores finais. Mas a demissão ainda precisava ser aprovada pelo conselho de administração da empresa.

Três dias após o novo reajuste, a Petrobras anunciou nesta segunda-feira que seu presidente, José Mauro Coelho, renunciou ao cargo.

Nos Estados Unidos, apesar do alívio temporário desta semana, os consumidores já temem outra alta até o feriado de 4 de julho, quando o país comemora o Dia da Independência e milhões de americanos devem pegar a estrada. Alguns analistas projetam que a média pode chegar a US$ 6 (cerca de R$ 30,78) por galão.

Os altos preços dos combustíveis contribuem para os baixos índices de aprovação do presidente em meio a temores de recessão e inflação de 8,6% nos 12 meses até maio, o nível mais alto em 40 anos.

Biden disse que até o final da semana tomará uma decisão sobre suspender temporariamente um imposto federal sobre o gás. A ideia de suspender esse imposto, a partir de 18 centavos (cerca de R$ 0,94) por galão, é uma das várias medidas que estão sendo consideradas pelo governo norte-americano, e precisaria de aprovação do Congresso.

Na semana passada, Biden criticou algumas das maiores empresas de petróleo e gás por priorizar “margens de lucro históricas” e “agravar a dor” dos consumidores. Ele disse que sua equipe deve se reunir com os executivos-chefes dessas empresas e buscar “uma explicação sobre por que eles não estão refinando mais petróleo”.

Mas para o economista Paolo Pasquariello, professor de finanças da Universidade de Michigan, as ações de Biden ou Bolsonaro não devem ter muito impacto na redução dos preços dos combustíveis.

“A verdade é que os políticos, em geral, não controlam os preços. E, principalmente, não controlam o preço do petróleo, que é uma commodity global”, diz Pasquariello à BBC News Brasil. “Em países democráticos, há muito pouco que o governo possa fazer.”

“Sabemos que este será um verão difícil (no hemisfério norte)”, resumiu a secretária de Energia dos EUA, Jennifer Granholm, em entrevista à CNN no fim de semana.

Para um economista, as ações de Biden ou Bolsonaro não devem ter muito impacto na redução dos preços dos combustíveis.

Granholm observou que um incentivo fiscal federal, se aprovado, afetaria os fundos para projetos de infraestrutura rodoviária e não afetaria fatores externos que contribuem para o aumento, como problemas de fornecimento e capacidade de refino.

Outras tentativas do governo federal de conter o aumento dos preços da gasolina nos EUA tiveram efeito limitado. No final de março, a Casa Branca anunciou que usaria a reserva estratégica de petróleo do país, liberando até 1 milhão de barris por dia durante seis meses. Mas os preços continuam altos.

Vários estados dos EUA, como Connecticut, Flórida, Geórgia, Maryland e Nova York, também anunciaram recentemente suspensões temporárias nos impostos estaduais sobre combustíveis para conter o aumento dos preços. Outros, como Kentucky, adiaram os reajustes fiscais esperados.

Os impostos estaduais variam muito em todo o país, de menos de US$ 0,10 (cerca de US$ 0,50) por galão em estados como o Alasca a quase US$ 0,60 (cerca de US$ 3) em locais como Pensilvânia ou Califórnia.

Apesar do aumento nacional dos preços dos combustíveis, nem todos os estados ou cidades dos EUA são afetados da mesma forma. Embora grandes metrópoles, como Chicago, tenham visto os preços nas bombas oscilarem em torno de US$ 6 o galão, em algumas áreas rurais os preços são mais baixos do que a média nacional.

Estima-se que pelo menos 17 estados tenham um preço médio acima de US $ 5 por galão. O maior valor é registrado na Califórnia, onde o galão médio de gasolina custa US$ 6,40.

Estima-se que o aumento médio de mais de US$ 1,90 por galão de gasolina no ano passado represente uma despesa extra de pelo menos US$ 172 por mês para as famílias americanas.

Assim como nos Estados Unidos, no Brasil o preço ao consumidor também varia de estado para estado. Enquanto na Bahia a média chegou a R$ 8,03 por litro de gasolina na semana encerrada em 18 de junho, no Amapá o preço médio foi de R$ 6,44.

O valor internacional do petróleo é determinado pela oferta e demanda, mas o preço final que os consumidores pagam pela gasolina, diesel e outros derivados depende de vários outros fatores ao longo da cadeia de fornecimento em cada país ou região.

Além dos preços do barril, taxas de câmbio e impostos, aspectos que vão desde o processamento, distribuição, transporte e proximidade das refinarias até políticas de subsídios e regulamentações ambientais, entre outros, também contribuem.

O analista Lenny Rodriguez, gerente setorial de Preços do Petróleo e Perspectivas Regionais da S&P Global Commodity Insights, aponta que mesmo antes da guerra na Ucrânia, os preços internacionais do petróleo já estavam subindo.

Nos últimos meses, também houve um grande aumento na demanda, com o relaxamento das restrições geradas pela pandemia em várias partes do mundo, acompanhando os avanços na vacinação.

“Este é o ano em que muitas pessoas estão pegando a estrada ou voando novamente”, disse Rodriguez à BBC News Brasil, ressaltando a grande demanda no setor de transporte, apesar dos altos preços dos combustíveis.

Rodriguez observa que, à medida que os padrões de demanda começam a voltar ao normal, as refinarias estão tentando acompanhar, mas ainda há um desequilíbrio. Ele espera que, pelo menos até o final do ano, os preços da gasolina e do diesel continuem acima da média dos últimos cinco anos.

Nos EUA, estima-se que o preço do barril de petróleo bruto represente cerca de 60% do valor de um galão de gasolina, e essa porcentagem aumentou desde o ano passado.

No Brasil, a Petrobras detalha em seu site os itens que compõem o preço da gasolina, ressaltando que “outros fatores entram no cálculo do valor” pago pelo consumidor. Segundo a Petrobras, no valor médio de R$ 7,23 por litro para a semana encerrada em 18/06, R$ 2,84 (39,3%) é a parcela que fica com a empresa.

Distribuição e revenda respondem por R$ 1,00 do preço total (13,8%), o custo do etanol anidro, por R$ 0,95 (13,1%), as contas do imposto estadual (que é o ICMS, ou sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) por R$ 1,75 (24,2%) e impostos federais, por R$ 0,69 (9,5%).

Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que estabelece teto de 17% para o ICMS de energia elétrica, combustíveis, telecomunicações e transporte público. O projeto deve ser sancionado pelo presidente.

Mas analistas apontam que os reajustes nos preços da gasolina no Brasil estão relacionados à política de paridade internacional de preços (PPI), adotada em 2016, por meio da qual a Petrobras vende derivados de petróleo, como gasolina, para distribuidores, seguindo os valores de mercado. Internacional.

Com essa política, os preços ficam atrelados ao preço internacional do barril de petróleo e são afetados pela variação do dólar. Mas, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), mesmo com os últimos ajustes, os valores da gasolina no Brasil ainda estão defasados ​​em relação ao mercado internacional.

No ranking de Preços Globais da Gasolina, que mediu o preço da gasolina em 168 países na semana encerrada em 13/06, o Brasil apareceu em 83º lugar, com média de US$ 1,41 (cerca de R$ 7,25), ainda antes do anúncio do Reajuste da Petrobras. Os Estados Unidos ocuparam a 76ª posição.

Segundo o levantamento, o litro mais barato naquela semana foi encontrado na Venezuela, a US$ 0,02 (cerca de R$ 0,10), e o mais caro em Hong Kong, onde os consumidores pagaram US$ 2,99. (cerca de R$ 15,41).

Pasquariello acredita que com vários bancos centrais ao redor do mundo aumentando as taxas de juros para esfriar suas economias, eventualmente haverá uma queda na demanda por petróleo.

“Não pelas razões que gostaríamos, mas vai cair de qualquer maneira, e isso vai puxar os preços para baixo.”

Voltar ao Topo