Economia

Clima frio no maior exportador de café provoca alta de preços

café

O maior fornecedor de café do mundo está enfrentando um dos climas mais frios em mais de 25 anos, diminuindo as esperanças para a colheita e ameaçando aumentar os preços da bebida popular.

As temperaturas nas regiões produtoras de café do Brasil caíram abaixo de zero Celsius (32 Fahrenheit) por horas na terça-feira, com o sul de Minas Gerais sendo o mais frio desde 1994, de acordo com o Rural Clima. Os danos ao café e também a alguns laranjais foram “muito significativos”, disse Marco Antonio dos Santos, meteorologista da Rural Clima, em Valinhos. Outra frente fria é esperada no final da próxima semana.

A geada está dando aos produtores um segundo golpe depois que uma forte seca deixou os campos ressecados e esgotou os reservatórios necessários para a irrigação. Além disso, a seca pode se agravar, com previsões de uma volta dos padrões climáticos do La Niña que atrasam as chuvas na região. A série de infortúnios pode fazer com que os consumidores paguem preços mais altos nos cafés e supermercados.

Francisco Cesar Di Giacomo, agricultor de São Gonçalo do Sapucaí, em Minas Gerais, disse que a geada afetou cerca de 60% de suas plantações. “Em algumas áreas da fazenda, queimou toda a safra”, disse Di Giacomo por mensagem de texto.

A geada pode queimar folhas e galhos das árvores, reduzindo as perspectivas para 2022 e destruindo as esperanças de uma safra abundante que reabasteceria os estoques. Isso é especialmente significativo porque os cafeeiros estão em um ciclo de dois anos e devem produzir mais na próxima temporada.

Muitos campos já foram podados no ano passado para produzir em 2022 e agora terão seu potencial de produção reduzido, disse Regis Ricco, diretor da RR Consultoria Rural. Depois da seca e das geadas, o próximo ano pode ser o pior ciclo de alto rendimento em décadas, disse ele.

As duas últimas geadas estão prejudicando entre 1 milhão e 2 milhões de sacas da safra 2022-23 do Brasil, segundo pesquisa realizada com exportadores e agrônomos pela mineira Cazarini Trading.

Por enquanto, as leituras vão esquentar nos próximos dias, e a nova previsão da frente fria na próxima semana não deve trazer temperaturas de congelamento severas, disse Drew Lerner, presidente da World Weather Inc.

Uma seca no início deste ano reduziu a produção de arábicas, o tipo de feijão preferido da Starbucks Corp. Nas áreas do norte de São Paulo e do Triângulo Mineiro, em Minas, a umidade do solo está em torno de 20%, bem abaixo dos 60% necessários para o desenvolvimento da cultura, segundo para Clima Rural. Também há sinais de menor produtividade nesta temporada para o feijão robusta do Brasil, usado por empresas como a Nestlé SA em suas marcas instantâneas Nescafé, que estão em maior demanda durante a pandemia.

geada de café brasil

Fazenda de café em São José do Rio Pardo em São Paulo após geada.

Fonte: RR Consultoria Rural

As chances de retorno de La Niña são de 45% entre agosto e outubro, 55% de setembro a novembro e 62% de outubro a dezembro, de acordo com o Centro de Previsão do Clima dos EUA. Há pouca almofada – o Departamento de Agricultura dos EUA vê os estoques no Brasil terminando a temporada no nível mais baixo em dados que remontam a 1960 e os estoques de café verde dos EUA caíram 18% em relação ao ano anterior.

Com toda a agitação, o retorno de um La Niña “provavelmente injetaria um novo ímpeto nos preços”, disse Hernando de la Roche, vice-presidente sênior da StoneX Financial Inc.

Os problemas climáticos aumentam os atrasos nos envios da Colômbia devido à agitação política e às crescentes taxas de frete que tornaram mais caro para os comerciantes transportar os grãos ao redor do mundo.

Para Carlos Mera, chefe de pesquisa agrícola do Rabobank International, todas as questões climáticas foram avaliadas, pelo menos para a produção deste ano. No entanto, o rápido retorno das chuvas para a safra do próximo ano será “fundamental” para as perspectivas de abastecimento, afirmou.

Mesmo com uma grande parte da colheita concluída, os compradores estão tendo dificuldade em encontrar grãos no mercado spot, disse Ricco, que vê a produção de arábica este ano cerca de metade do total do ano passado.

Daniel Daianas Ribeiro, fazendeiro de 42 anos que cultiva cerca de 2.000 hectares de café em São Paulo e no Paraná com seu grupo familiar, reduziu sua estimativa de safra em 25% a 30% desde o início da colheita em maio.

Colheita Decepcionante

A safra atual já é decepcionante. A seca prejudicou o feijão, tornando-o menor ou oco. Como resultado, os agricultores precisam em média de 600 litros (158,5 galões) de feijão para encher um saco de 60 quilos, em vez dos habituais 450 a 500 litros, disse Judy Ganes, consultora que cobriu o mercado por mais de três décadas e acabei de voltar de um tour pelas plantações no Brasil.

“Algumas pessoas não querem acreditar como a situação está ruim e continuam inflando a safra do ano passado, dizendo que há muitos estoques”, disse ela.

Voltar ao Topo