Economia

Cancelamento do carnaval afeta vendas das cervejarias

Ambev oferece vagas de emprego cervejaria

No segundo ano sem carnaval de rua, as cervejarias já encontraram formas de comercializar sua produção, como a venda pelo comércio online e varejo. Espera-se que as vendas sejam pelo menos um pouco melhores do que um ano antes. Mas o cancelamento dos chamados blocos de rua (bandas que atraem milhares de pessoas cantando e dançando) em pelo menos 10 capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, está estragando a festa da cerveja dos cervejeiros.

A variante ômicron, que está infectando muitas pessoas com a Covid-19, o clima mais chuvoso do que o habitual em várias partes do país, e a alta inflação, que reduz o poder aquisitivo do consumidor, também não favorecem o mercado de cervejas.

Após muitos meses de volumes expressivos em meio à pandemia, a produção de cerveja começou a dar sinais de desaceleração no final de 2021. Em novembro, a produção de bebidas alcoólicas caiu 11% em relação ao mesmo mês de 2020, segundo dados a agência de estatísticas IBGE. A cerveja é a principal bebida produzida pela indústria brasileira.

Diante desse cenário, a equipe do Credit Suisse espera que a Ambev, maior produtora do país, tenha queda de 2,5% nas vendas no quarto trimestre em relação ao mesmo período de 2020. Na comparação com 2019, ainda deve haver alta de 9 %.

Os dados consolidados para 2021 não estão fechados, mas a estimativa feita pela consultoria Euromonitor, a pedido do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), é que as vendas em todo o ano passado tenham crescido 7,7%, para 14,3 bilhões de litros , em relação a 2020.

A indústria esperava que o Carnaval fosse um ponto de virada para os quase dois anos de medidas de distanciamento social, quando bares e restaurantes pararam. É aí que a indústria tem a maior lucratividade.

“Havia um sentimento mais forte de retomada. O cancelamento evoca incertezas sobre a reabertura por causa da variante omicron”, disse Marcella Recchia, analista de alimentos e bebidas do Credit Suisse. Em pesquisa realizada em dezembro pelo banco com 350 bares em São Paulo, o relatório de crescimento das vendas de garrafas de 1,6 litro trouxe “tendências animadoras”. A volta do consumidor aos bares também sugeriu uma menor participação do alumínio (usado nas latas mais vendidas nos supermercados) na estrutura de custos das empresas até 2022.

Com os cancelamentos das festas de carnaval, os fabricantes já estudam os próximos passos. O grupo Heineken diz que está seguindo a decisão de cada estado e seguirá as orientações e protocolos sanitários das autoridades públicas. “Em relação ao volume previsto para o período, informamos que o planejamento não sofrerá nenhuma alteração apesar do cancelamento do Carnaval de rua nas principais capitais”, afirma o grupo.

Citando também as recomendações das autoridades médicas, a Ambev diz que “está conversando com parceiros e, juntos, avaliando os próximos passos”. No ano passado, a empresa ofereceu auxílio financeiro de R$ 255 aos fornecedores cadastrados. O Grupo Petrópolis não quis comentar.

Ao tentar projetar o resultado para os próximos meses, o analista do Credit Suisse diz que o primeiro trimestre deve ser semelhante aos últimos meses do ano passado. Assim como outubro, novembro e dezembro, janeiro teve principalmente temperaturas mais amenas e alto volume de chuvas. “Um ambiente de consumo mais frágil, que pode ter efeitos ao longo do ano, agrava isso”, disse Recchia. É por isso que se esperava que o Carnaval fosse um tiro no braço.

Mesmo assim, a vacinação e a indicação de que a grande maioria dos casos de Covid-19 não evoluiu para quadros clínicos graves dão esperança de que o feriado de Carnaval ainda aqueça o consumo. “Não haverá festa oficial, mas mais pessoas se reunindo. Não vai compensar as festas de rua, porque terá um tom mais ameno de comemoração, mas veremos um aumento de consumo nesta época em relação ao ano passado”, disse Rodrigo Mattos, analista da Euromonitor.

Luiz Nicolaewsky, diretor do Sindicerv, grupo comercial que representa Ambev e Heineken, diz que o setor se adaptou às demandas dos consumidores e inovou com serviços diferenciados para quem passou a beber em casa. “Houve um aumento significativo de supermercados e e-commerce, e esperamos que esse hábito continue entre os consumidores.”

Nicolaewsky também aposta em bares e restaurantes como canais importantes para o resultado deste ano. Em 2021, com um aumento de casos e mortes, o final do verão viu mais restrições e paralisações para o setor de serviços.

Mas o cenário não é tão simples. Há dois fatores preocupantes sobre a recuperação dos canais out-of-home que são tão importantes para ajudar as cervejarias a proteger suas margens em um novo ano de altos preços das commodities. Uma delas é a sensação de medo causada pelo avanço do omicron que já começa a tirar os consumidores das ruas. “Vimos o consumo fora de casa melhorando gradualmente desde julho, mas agora isso está começando a mudar”, diz Hudson Romano, gerente sênior da Kantar. A outra, segundo o Sr. Romano, é a frequência. “Há mais bebedores de cerveja, mas com preços mais altos e renda pressionada, eles estão consumindo menos.”

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