Energia

Brasil não tem plano de falta de energia, corre o risco de apagões

O Brasil pode correr um risco maior de apagões este ano em meio a uma seca histórica e à falta de medidas para mitigar a escassez de energia.

A energia hidrelétrica representa 65% da mistura de geração de energia brasileira, mas o país está enfrentando a seca mais severa em 91 anos. Há grandes chances de o fornecimento de energia não conseguir atender a demanda no segundo semestre deste ano, no auge da seca.

Mas as autoridades de energia brasileiras não têm um plano para lidar com a escassez de energia, como a implementação de apagões controlados, o que significa que os consumidores não estão preparados para o racionamento de energia. E as regulamentações do setor de energia carecem de incentivos para que os consumidores industriais reduzam seu uso durante os horários de pico de consumo.

O custo adicional para geração de energia térmica para manter a rede elétrica do país estável em meio à seca está crescendo. Em 2019, o custo da energia térmica adicionado R1,7 bilhões, em 2020 aumentou para R4,3 bilhões, mas nos primeiros quatro meses de 2021 já atingiu R5,4 bilhões, de acordo com o operador do sistema de energia. Espera-se que esses custos aumentem ainda mais, mesmo para consumidores com contratos de preço fixo no mercado aberto, uma vez que são adicionados aos custos de energia do consumidor depois que ocorrem, tornando difícil para as empresas fazerem hedge de seus gastos totais com energia.

As distribuidoras de energia – que fornecem 70% da demanda brasileira de energia no mercado cativo – não planejam apagões contínuos, disse Marcos Aurelio Madureira, presidente da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica, Abradee.

“No momento não temos nenhuma informação que nos leve a considerar alguma restrição de fornecimento”, disse.

A única ação das distribuidoras no momento é uma campanha alertando os consumidores residenciais para economizar energia para evitar custos inesperados.

As distribuidoras temem que o governo não divulgue a verdadeira natureza dos desafios do setor elétrico e, assim, não permita que distribuidoras e consumidores industriais planejem desabastecimento ou racionamento, segundo fonte próxima às empresas. Também há falta de comunicação entre as empresas de energia e representantes do governo para que as empresas possam ajudar a desenvolver soluções para evitar a escassez ou diminuir os custos com apagões contínuos, disse a fonte.

O governo brasileiro nega que o racionamento de energia esteja sendo considerado, como pedir aos consumidores que reduzam o consumo de energia em regiões específicas – incluindo a interrupção da produção nas fábricas durante os horários de pico.

Os consumidores de energia industrial não estão discutindo paralisações programadas para economizar energia elétrica, nem uma mudança para o uso de energia fora do horário de pico, de acordo com a associação brasileira de grandes consumidores de energia, Abrace, cuja lista de associados inclui Vale, GM e Nestlé.

De acordo com os regulamentos atuais, os consumidores de energia industrial não têm incentivos para conservar energia. A atividade industrial brasileira caiu 4,5% em 2020, mas se recuperou um pouco em meio ao afrouxamento das restrições relacionadas à Covid-19. Apesar do custo crescente, o consumo de energia está aumentando, com a demanda de maio aumentando em 12,4% em relação ao ano anterior.

Consumidores industriais temem que o governo decida medidas compulsórias, como multas por consumo acima dos limites pré-estabelecidos ou cronogramas de racionamento, disse o diretor técnico da Abrace, Fillipe Soares. O grupo participa de reuniões com o Ministério de Minas e Energia para opinar sobre os planos do governo para evitar a escassez. Um foco principal seria a criação de um programa de resposta à demanda de energia, onde os consumidores reduzem ou mudam o uso de eletricidade durante os períodos de pico em resposta a incentivos financeiros, permitindo ao operador do sistema evitar o despacho das usinas mais caras.

O Ministério de Minas e Energia confirmou que sua equipe técnica estava se reunindo com a Abrace, mas não quis comentar sobre a natureza das discussões.

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