Óleo e Gás

Brasil pode mudar metas de emissões para curar reputação

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O Brasil espera aproveitar as vantagens da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) para desfazer a reputação de vilão ambiental construído durante os primeiros dois anos do governo Bolsonaro perante a comunidade internacional. Superar a desconfiança e mudar a percepção, principalmente dos negociadores americanos e europeus – além de mostrar que o país quer colaborar para um acordo que leve a uma redução efetiva das emissões de gases de efeito estufa – pode ser o maior desafio do país no evento, que ocorre entre 31 de outubro e 12 de novembro em Glasgow, Escócia.

Os ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente estão considerando inclusive aumentar a oferta brasileira de redução de emissões como um gesto de boa vontade durante a conferência. O país já se comprometeu a reduzir suas emissões em 27% até 2025 e 43% até 2030, em relação a 2005. Uma ideia, ainda em análise, é aumentar para 45%, apurou o Valor.

A percepção de que a reputação do Brasil continua negativa foi cristalizada durante o evento pré-COP realizado em Milão na semana passada. Membros do governo observaram que ainda existe uma grande desconfiança em relação à real disposição do Brasil em construir um acordo climático, especialmente nas conversas com Frans Timmermans, vice-presidente executivo da Comissão Europeia.

“O que ainda pode acontecer com a Comissão Europeia é que eles ainda não perceberam que houve uma mudança na atitude do Brasil em relação às questões ambientais, incluindo as mudanças climáticas”, disse uma fonte familiarizada com o assunto. “Há uma percepção equivocada sobre a posição que o Brasil terá nesta COP. Vai ser muito construtivo, queremos chegar a acordos. É do nosso interesse tanto do ponto de vista da nossa reputação no estrangeiro como do ponto de vista doméstico. ”

Essa mudança de atitude decorre de transformações no cenário internacional, mas também de pressões internas. Com a vitória do democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump nos Estados Unidos, a balança começou a pesar desfavoravelmente contra a postura refratária adotada pelo presidente Jair Bolsonaro durante seus primeiros dois anos de mandato. Internamente, pressões vindas dos mais modernos setores do agronegócio e também do Congresso também passaram a influenciar o presidente, que precisará ampliar sua base de apoio para a reeleição no próximo ano.

O símbolo da mudança que o Brasil pretende explicitar na CoP foi a mudança dos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). Fontes afirmam que os sucessores Carlos França e Joaquim Leite, respectivamente, têm mandato do presidente para colocar o país em condições de contribuir para um acordo, e não de impedi-lo.

“Eles [europeus e americanos] veem o Brasil ainda com certa insegurança quanto à nossa capacidade de cumprir nossos compromissos. Mas isso ainda é muito alimentado por uma visão retrospectiva, que não leva em conta as mudanças ocorridas tanto no exterior quanto no meio ambiente ”, afirma a mesma fonte.

O Brasil continuará a pedir às nações desenvolvidas que paguem os US $ 100 bilhões por ano prometidos há mais de uma década em financiamento climático para os países pobres. No entanto, isso será feito de uma forma diferente da usada pelo Sr. Salles.

Há uma percepção entre os representantes brasileiros na COP de que a postura do ex-ministro, muitas vezes qualificada de mostre-me-o-dinheiro, não foi “a mais adequada”, enquanto pouco foi feito do ponto de vista das políticas públicas para combater o desmatamento na Amazônia.

Uma metáfora usada por um interlocutor do governo é que “havia uma certa esquizofrenia entre pedir dinheiro para reformar a casa e não cuidar do imóvel, não limpá-lo ou lavar a louça”.

Os negociadores brasileiros ressaltam em Glasgow que Bolsonaro mostrou disposição de mudar ao anunciar, em abril, a meta de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, além de antecipar em dez anos a conquista da neutralidade climática para 2050.

No entanto, embora tenha havido substituições nos principais ministérios relacionados ao acordo climático, a imagem do presidente brasileiro ainda está associada à devastação. Além disso, o desmatamento na Amazônia, que vinha aumentando, caiu em julho e agosto, mas continua em patamar elevado.

Para fontes consultadas pelo Valor, não faz muito sentido que a Europa se junte a EUA, Rússia, Índia e China para isolar o Brasil na COP 26, como tem sido ponderado por negociadores estrangeiros. Isso em parte porque, na visão do governo brasileiro, os europeus têm interesses menos conflitantes apenas com os Estados Unidos, em comparação com os outros três países.

Os europeus acreditam que o acordo UE-Mercosul agrava o antagonismo local ao Brasil nas discussões climáticas, somado à ascensão dos verdes em vários países do continente.

Para fontes do governo brasileiro, todos os países e regiões terão que lidar com essa nova abordagem europeia, mais incisiva nas questões climáticas. E não só o Mercosul.

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