Economia

Brasil entre os mais expostos à desaceleração da China

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A preocupação de que um possível default da gigante imobiliária chinesa Evergrande pudesse resultar em uma contração financeira abrupta na China e causar uma espécie de repetição da crise financeira de 2008 resultou em uma forte onda de aversão ao risco no pregão de segunda-feira. Em uma semana já deixando os investidores ansiosos por causa das decisões sobre taxas de juros do Federal Reserve e de outros bancos centrais, inclusive o brasileiro, esses temores levaram a uma queda generalizada nas bolsas de valores e nos preços das commodities em todo o mundo, além de um salto nos demanda pelo dólar e outras moedas consideradas “portos seguros”, como o iene e o franco suíço.

No Brasil, onde o cenário local já deixava os investidores cautelosos, o viés trazido do exterior foi suficiente para fazer o Ibovespa cair 2,33%, para 108.844 pontos, o menor desde 23 de novembro de 2020. A taxa de câmbio, por sua vez, subiu 0,87%, a R $ 5,33 por dólar, após atingir R $ 5,3772 no pregão, patamar não visto desde 20 de agosto.

As preocupações dos investidores em todo o mundo parecem ter se condensado em uma expressão: o medo de um “evento do Lehman”, em referência à falência do banco americano Lehman Brothers em setembro de 2008, que efetivamente deu início à crise financeira global naquele ano .

Uma das maiores incorporadoras imobiliárias do mundo, a chinesa Evergrande tem dívidas de mais de US $ 300 bilhões e, sem o resgate do governo chinês, pode não ser capaz de honrar seus compromissos. De acordo com a consultoria Capital Economics, a empresa não é a única incorporadora imobiliária chinesa altamente alavancada, mas por conta de sua forte dependência de dívidas de curto prazo, é especialmente vulnerável a um aperto nas condições de crédito.

Como a economia chinesa é altamente regulada, analistas alertam que grande parte das consequências para a economia mundial de um possível default do incorporador depende de como Pequim vai lidar com a situação.

Alberto Bernal, chefe de estratégia global da XP Investments, acredita que não é do interesse do governo chinês deixar a situação piorar muito. “Duvido que mesmo uma quebra de Evergrande levaria a um evento do Lehman, porque isso seria muito perigoso”, disse o estrategista. O profissional lembrou que no sistema chinês as intervenções podem ser feitas “quase imediatamente” e que, por isso, deixar um evento do Lehman acontecer seria uma escolha deliberada do governo chinês, que tem a capacidade necessária para conter o contágio.

Para avaliar os efeitos de uma desaceleração mais firme na China sobre outros países, Wells Fargo fez uma análise de regressão com dados de 2016. O exercício sugere que o Brasil está entre as economias mais expostas, junto com Cingapura, África do Sul, Coreia do Sul, Chile e Rússia. “Nossa análise indica que os países que dependem fortemente das exportações, dos altos preços das commodities e que estão fortemente integrados ao sistema financeiro da China devem sofrer maior pressão”, disseram os economistas Brendan McKenna e Jessica Guo do Wells Fargo.

O estudo dividiu os efeitos em três categorias: sensibilidade da moeda local, mercado de ações e exportações. Em relação ao primeiro, o real brasileiro está entre os ativos mais expostos, junto com o rand sul-africano, o rublo russo, o zloty polonês e os pesos mexicano e colombiano. Essas moedas teriam sensibilidade igual ou superior a 0,9 às variações do yuan – ou seja, uma desvalorização de 1% da moeda chinesa resultaria em uma desvalorização de pelo menos 0,9% dessas moedas.

Quanto ao mercado de ações, Wells Fargo encontrou apenas uma correlação “moderada” entre Brasil e China. Nesse caso, os países em maior risco são Cingapura, África do Sul e Coréia do Sul.

Em relação às exportações, Wells Fargo coloca o Brasil como um país de sensibilidade moderada, já que exporta entre 2% e 6% do seu PIB para a China.

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