Economia

O Brasil está caminhando para um exagero monetário?

brasil fiscal

O Banco Central do Brasil se colocou na linha de frente da batalha global contra a inflação, mas seu aperto monetário agressivo pode sufocar a economia.

Com a inflação anual em 10%, o Banco Central deixará de cumprir sua meta central de 3,75% neste ano e, possivelmente, a meta de 3,50% do ano que vem também. Uma moeda cronicamente fraca e uma preocupação renovada com as finanças públicas estão apenas redobrando seu compromisso com o aumento das taxas.

Em muitos aspectos, ele tem pouca escolha.

Ao contrário do Fed dos EUA ou do Banco Central Europeu, que borrou suas diretrizes de metas de inflação recentemente para se darem maior flexibilidade de política, a estrutura do banco central brasileiro é mais rígida.

Ele tem uma meta para o final do ano, com uma margem de erro de 1,5 ponto percentual em ambos os lados, o que oferece alguma margem de manobra. Mas ela está efetivamente comprometida com uma previsão pontual e, dado o passado hiperinflacionário do Brasil, os legisladores relutam em arriscar sua credibilidade perdendo-a.

É por isso que o comitê de fixação de taxas do banco conhecido como “Copom” entregará sua quinta alta consecutiva de juros em 22 de setembro. A única dúvida é se a taxa Selic será elevada em 100 pontos base, como ocorreu em agosto, ou mais.

Mas é uma ferramenta contundente e as perspectivas econômicas estão escurecendo.

De acordo com algumas medidas, as taxas de juros reais não são profundamente negativas, como diz o pressuposto corrente, mas na verdade estão entre as mais altas entre todas as principais economias.

Robin Brooks, do International Institute of Finance em Washington, calcula que, com base nos rendimentos dos títulos do governo nominais de 10 anos e nas taxas de inflação de equilíbrio de 10 anos, a taxa de juros real do Brasil é pouco menos de 5%.

Esse é o mais alto em uma série de economias desenvolvidas e emergentes.

Brooks diz que o uso de medidas de inflação de longo prazo elimina os atuais problemas de gargalo de oferta e “ruído” nas leituras de inflação recentes, dando uma imagem mais justa.

Jason Vieira, da Infinity Asset Management em São Paulo, usa uma visão de curto prazo, mas chega a uma conclusão semelhante. Com base na diferença entre os juros futuros de 12 meses mais líquidos e a inflação projetada para o próximo ano, ele calcula que as taxas reais no Brasil estão em torno de 2,5%.

Isso pode não parecer muito, mas de acordo com sua análise de 40 grandes economias desenvolvidas e emergentes, é a segunda maior do mundo, atrás da Turquia. E ele vê um aumento acima de 4% no ano que vem.

DÉCADA PERDIDA

As recentes oscilações na inflação, na moeda e nas taxas de juros do Brasil foram notáveis.

O Copom está agora comandando um dos ciclos de alta de juros mais agressivos de qualquer Banco Central do G20, e a inflação é a terceira maior de qualquer país do G20, atrás da Argentina e da Turquia.

Mesmo assim, em maio do ano passado a inflação foi a mais baixa registrada na história do Brasil, abaixo de 2%, e até março deste ano a Selic estava no nível mais baixo de sua história, 2,00%. A Selic atual é de 5,25% e sua taxa terminal poderia ficar mais perto de 10%.

O ex-chefe do Banco Central, Armínio Fraga, compartilha da visão ortodoxa de que o banco central não tem outra opção a não ser aumentar as taxas a fim de ancorar a credibilidade na inflação, apoiar a moeda e conter uma perspectiva fiscal em deterioração.

“Não estamos em uma situação totalmente sob controle”, disse ele à Reuters no início deste mês.

Mas ele também reconheceu que o crescimento foi por muito tempo “realmente medíocre”. Os períodos de crescimento são geralmente “baixos e altamente voláteis” e vão além da pandemia e dos ciclos econômicos de curto prazo.

De acordo com a última pesquisa semanal “FOCUS” do banco central com mais de 100 economistas, o Brasil deve crescer 5% este ano. Trata-se de uma recuperação sólida em “forma de V” ante a contração de 4,1% do ano passado, como costuma apontar o ministro da Economia, Paulo Guedes.

No entanto, a previsão mediana de “FOCO” para o próximo ano caiu para 1,6% de crescimento do PIB, de 2% três semanas atrás. Em março era de 2,5%.

A economia do Brasil está mais da metade do caminho em direção a uma década perdida. É 3% menor do que seu pico no início de 2014 e, desde então, sofreu duas recessões profundas e não cresceu mais de 2% em 2017, 2018 ou 2019.

O desemprego permaneceu cronicamente alto. Ele foi superior a 14% na maior parte do ano passado, e a última vez que esteve abaixo de 10% foi há quase seis anos.

Os números subjacentes também mostram que, se a taxa de participação da força de trabalho estivesse nos níveis anteriores à crise, o desemprego seria superior a 20%. Mais de 30 milhões de pessoas, quase um terço da força de trabalho ativa, estão subempregados.

É improvável que taxas de juros significativamente mais altas reduzam essa folga ou fortaleçam a dinâmica de crescimento do Brasil no curto prazo.

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