Economia

Presidente do Banco Central minimiza risco fiscal

roberto campos neto banco central

Os preços em moeda brasileira das commodities e da energia elétrica, somados aos “desequilíbrios” entre demanda e oferta de insumos globais, foram “os principais fatores” para explicar a inflação do ano passado acima do limite superior da meta. O quadro foi influenciado pela desvalorização do câmbio após “questionamentos” sobre o “marco fiscal”.

As declarações foram feitas terça-feira pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em carta pública dirigida a Paulo Guedes, ministro da Economia do Brasil. Para trazer a inflação de volta às metas, o Banco Central vem promovendo o que já é o maior aumento da taxa de juros real desde que o regime de metas entrou em vigor, segundo Campos.

“A significativa aceleração da inflação em 2021 para níveis acima das metas foi um fenômeno global, afetando a maioria dos países avançados e emergentes”, disse ele no documento.

Conforme divulgado na manhã de terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2021 em 10,06%. A meta de inflação do ano passado foi de 3,75%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Sempre que a inflação fique fora desta faixa, o presidente do Banco Central é obrigado a escrever uma carta pública dirigida ao ministro da Economia detalhando as razões do comportamento da evolução dos preços no ano anterior.

Nos cálculos apresentados pelo Sr. Campos Neto na carta, a “inflação importada” de outros países, atrelada às commodities e ao câmbio, foi responsável por 4,38 pontos percentuais do desvio de 6,31 pontos percentuais do teto da meta. Em seguida vieram dois outros fatores: a inércia inflacionária em 2020 (responsável por 1,21 ponto percentual do desvio) e as expectativas de inflação (0,25 ponto percentual). Já a tarifa de energia elétrica teve um impacto de 0,67 ponto percentual na inflação como um todo.

Na direção oposta, a folga econômica, medida pelo hiato do produto, atuou para manter os preços abaixo da meta. O impacto deste fator na inflação como um todo no ano passado foi negativo em 1,21 pontos percentuais. “Houve uma combinação de choques de custos que foi parcialmente compensado pelo hiato negativo do produto”, disse ele.

Na carta, Campos destacou ainda que em dezembro do ano passado a desvalorização do real frente ao dólar atingiu 9,83%, em relação ao mesmo mês de 2020.

“A tendência de depreciação no segundo semestre de 2021 refletiu principalmente questionamentos sobre o futuro do atual quadro fiscal e o aumento dos prêmios de risco associados aos ativos brasileiros, diante da maior incerteza em torno da trajetória futura da dívida soberana”, disse. Ele também mencionou novamente que houve uma “quebra no padrão histórico de valorização da moeda nacional durante os ciclos de alta dos preços das commodities”.

Nesse contexto, o “Banco Central calibrou a taxa básica de juros e continuará fazendo isso, visando o cumprimento das metas de inflação”. Desde março, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou de 2% a taxa básica de juros Selic para 9,25% ao ano. Além disso, afirmou que “prevê” um novo aumento de 150 pontos base para a reunião de fevereiro e que considera “adequado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista”.

Atualmente, o Banco Central visa com igual importância os anos de 2022 e 2023 para impulsionar a taxa Selic, para as quais as metas são respectivamente 3,5% e 3,25%, sempre com intervalo de tolerância de 150 pontos base mais ou menos. “O aumento da taxa real neste ciclo é o maior ocorrido durante o regime de metas de inflação”, escreveu Campos.

O cálculo leva em consideração a Selic acumulada quatro trimestres à frente, descontada das expectativas de inflação, sendo ambas as variáveis ​​extraídas da Pesquisa Focus do Banco Central e medidas em médias trimestrais. Assim, a taxa de juro real anual passou para um valor positivo de 4,4% no último trimestre de 2020 de um valor negativo de 1,3% no mesmo período.

“Este movimento significou o deslocamento da política monetária do campo expansionista para o território contracionista”, disse, lembrando que esta avaliação leva em consideração uma taxa de juros neutra em 3,5% ao ano em termos reais. A taxa neutra é aquela que não acelera nem desacelera a inflação. “Nessa trajetória, a taxa real subirá para 6,3% e 6,4% no primeiro e segundo trimestres de 2022, respectivamente.”

Segundo o presidente, as projeções do BC “são de que a inflação entre em trajetória de queda já no início de 2022, encerrando o ano em patamar significativamente inferior ao de 2021”. A autoridade monetária estima o IPCA em 4,7% este ano e 3,2% em 2023.

“Portanto, o cenário é de convergência da inflação para as metas no horizonte relevante”, disse. “Nesse cenário, em 2022, a inflação ainda permanece acima da meta, embora dentro do intervalo de tolerância, devido aos efeitos inerciais da inflação de 2021.”

Voltar ao Topo