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Trabalhadores autônomos e domésticos geram subemprego no Brasil

Desemprego subemprego

O maior número de trabalhadores subempregados na pandemia, que atingiu o nível recorde de 7,5 milhões no segundo trimestre de 2021, foi impulsionado principalmente por trabalhadores autônomos e trabalhadores domésticos informais. Os dois grupos foram responsáveis ​​por 70% do crescimento de 1,93 milhão de pessoas nessa condição entre abril e junho deste ano em relação ao mesmo período de 2020. Também são a maioria (73%) do crescimento de 511 mil trabalhadores nessa condição entre primeiro e segundo trimestre de 2021.

Os resultados são de estudo da LCA Consultores for Valor, com base em microdados da Pesquisa Nacional Contínua por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua). Ao se olhar por nível de escolaridade, nota-se forte influência dos trabalhadores com ensino fundamental incompleto e ensino médio completo, mas também aumento entre aqueles com ensino superior completo.

Os subempregados são aqueles que trabalham menos horas do que gostariam – menos de 40 horas de trabalho por semana. Os economistas destacam que a forte expansão desse grupo reflete, ao mesmo tempo, a fragilidade do mercado e também o início de uma reação, que por enquanto se verifica entre os empregos de menor qualidade.

A população ocupada total cresceu 2,141 milhões de pessoas entre o segundo trimestre de 2020 e o segundo trimestre de 2021. Os trabalhadores subempregados representam a grande maioria deste contingente (90%), com 1,9 milhão de pessoas. Com isso, a proporção de subempregados em relação ao total de trabalhadores ocupados no país também aumentou para 8,4% no segundo trimestre de 2021 de 6,7% no segundo trimestre de 2020. Além disso, no mesmo mercado ainda há 14,4 milhões de desempregados.

“O grupo de subempregados por carga horária insuficiente é formado principalmente por trabalhadores informais. Com tantas perdas de empregos, as pessoas acabam aceitando empregos com menor jornada de trabalho e ainda menos qualificação, pois precisam recuperar a renda e pagar as contas, principalmente por causa do aumento da inflação ”, disse Bruno Imaizumi, economista que conduziu a pesquisa.

O aumento do emprego que começa a aparecer nas estatísticas, disse ele, é para trabalhos de pior qualidade, e esse salto de subemprego é um indicativo disso.

O avanço da redução da jornada de trabalho também surge em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência Social, que fiscaliza o mercado formal. O número de contratados intermitentes – novidade trazida pela reforma trabalhista, empregados que trabalham por hora ou por prazo determinado – atingiu 41.180 no período de janeiro a julho de 2021, quase 50% a mais que os 27.688 no mesmo período em 2020.

João Saboia, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que há uma tendência ‘inequívoca’ de aumento desse grupo diante da crise e da fragilidade do mercado de trabalho. “O subemprego ocorre principalmente no setor informal. O aumento de subempregados acaba surgindo principalmente entre os que já têm trabalho mais precário, como os trabalhadores informais e os da região Nordeste, por exemplo ”, disse, ressaltando, porém, que também há uma disseminação entre os diferentes graus de educação.

Entre os subempregados, 27,9% são trabalhadores com ensino fundamental incompleto, 30,7% do grupo com ensino médio completo, mas há uma fatia de 15% composta por aqueles com ensino superior completo. “São três grupos bem distintos, o que mostra que o subemprego se generalizou nas diversas turmas de escolaridade”, destaca.

O estudo da LCA Consultores também indica uma clara diferença regional em relação aos trabalhadores que gostariam de trabalhar mais horas, mas não o fazem por falta de oportunidades.

O Nordeste, região que já apresentava a maior parcela de subempregados em relação aos ocupados, viu a taxa subir para 14,4%, também impulsionada pela queda do pessoal ocupado. O aumento também foi verificado na região Sudeste, onde a proporção passou de 5,7% no quarto trimestre de 2019 para 7,4% no segundo trimestre de 2021. O Sul foi a região com o menor aumento, de apenas 24.000 pessoas, o que empurrou a taxa de até 4,9% de 4,5%.

Solange Augusto Moraes — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Solange Augusto Moraes — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Aos 56 anos, Solange Augusto Moraes é uma das 7,54 milhões de trabalhadoras do país e dos 2,88 milhões da região Sudeste que trabalham menos horas do que gostariam. Antes da pandemia, ela trabalhava como faxineira todos os dias da semana. Temendo o contágio, os patrões idosos demitiram seu trabalho. Hoje, ela trabalha apenas em uma casa, um dia por semana, e complementa a renda com o que recebe de uma das filhas para cuidar do neto nos fins de semana, enquanto ela trabalha.

Nem mesmo o esforço recente de voltar a estudar tem sido suficiente para garantir uma vaga plena no mercado de trabalho. Há alguns anos, ela decidiu voltar à escola em busca de melhores oportunidades. Concluiu o ensino médio e fez o curso técnico em Segurança do Trabalho pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) em 2015. Na época, fez estágio na área, mas não foi contratada.

Com o incentivo de um professor, ela decidiu estudar Engenharia Ambiental. A Sra. Moraes teve que optar por uma universidade privada, com bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni), para continuar pagando as despesas de sua casa.

Agora, prestes a se formar, participa de dois processos seletivos de trainees na área, mas tem dificuldade em encontrar trabalho para cobrir suas despesas mensais. “Procuro trabalho de limpeza, trabalho de escritório, nas minhas áreas de estudo, tudo, mas não encontro. Pode ser qualquer coisa ”, diz ela.

José Marcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, destaca que o aumento do subemprego devido à insuficiência de horas reflete o início da reação do mercado de trabalho, que é um processo lento diante do impacto da pandemia.

“É assim que as pessoas estão conseguindo entrar no mercado. É uma fase, faz parte de uma recuperação do mercado de trabalho, não dá para voltar de uma hora para outra e em empregos de melhor qualidade ”, disse, lembrando que o movimento também já foi visto em outros países, como o Estados Unidos.

Mesmo com uma renda menor, esses trabalhadores estão gerando alguma renda e, com isso, criam demanda por bens e serviços, que por sua vez estimulam a geração de mais empregos, contribuindo para a atividade econômica como um todo, afirma. “E isso ajuda na recuperação da economia.”

No curto prazo, o número de trabalhadores desempregados deve continuar pressionado, segundo Camargo, mas tende a cair quando houver uma reação mais forte da economia capaz de absorver essa força de trabalho. Para ele, a tendência de redução de casos e óbitos pela Covid-19 desde junho, com o avanço da vacinação em massa, tende a estimular serviços como restaurantes, bares e hotéis, contribuindo para a geração de empregos. E esses são campos, diz ele, com potencial exatamente para o trabalhador mais afetado pela pandemia – pouco qualificado e informal.

“Os subempregados estão em situação precária, poderiam ter mais renda e contribuir mais para o país, mas de qualquer forma, é uma situação melhor do que os desempregados”, pondera João Saboia.

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