A queda espetacular no mercado de petróleo está provocando reverberações sem precedentes em commodities e economias, com os produtores brasileiros de etanol de milho se destacando como uma concentração da dor. Isso mostra como o desenrolar do mercado de petróleo está ameaçando a produção de energia mais limpa e renovável. Enquanto o óleo cai, o etanol está sob pressão. Os dois competem diretamente na bomba no Brasil, onde a maioria dos motoristas tem carros flex, que também podem rodar.

As margens do biocombustível à base de grãos já se tornaram negativas no estado de Goiás, onde um terço das plantas do país está sediado, disse Matheus Costa, analista do INTL FCStone. Se os preços mais baixos da energia forem sustentados, as coisas podem piorar. Cerca de 60% dos projetos de expansão planejados podem ser descartados, de acordo com Guilherme Nolasco, presidente do grupo da indústria conhecido como Unem.

É uma reviravolta acentuada nas perspectivas. O dinheiro estava inundando o setor, enquanto empresas como a Cargill Inc. trabalhavam para aumentar a capacidade em meio à demanda crescente por combustível renovável. No início de 2020, a FCStone previu que a produção de etanol de milho na próxima safra 2020-2021 saltaria para 2,5 bilhões de litros. Isso teria aumentado mais de 16 vezes em relação aos 150 milhões de litros há apenas cinco anos.

O colapso do petróleo ocorre em um momento em que os custos do milho já estavam subindo para as usinas que transformam o grão em biocombustível. Mas os preços relativamente altos da energia permitiram que os processadores continuassem lucrativos, com uma produção que deverá saltar mais de 50% este ano em relação à temporada passada. Isso agora está sendo questionado.

O boom do preço do milho combinado com a queda do petróleo realmente nos preocupa com a possibilidade de investimentos, disse Nolasco em uma conferência do setor na semana passada em São Paulo.

O Brasil possui cerca de 15 usinas de etanol em operação, três em fase pré-operacional e 23 novas usinas estão em processo, segundo a Unem. Se os preços do petróleo permanecerem próximos dos níveis atuais, provavelmente apenas 40% dos projetos continuarão, disse Nolasco.

Diferentemente das usinas brasileiras que produzem etanol a partir da cana-de-açúcar, responsável pela grande maioria do mercado nacional de 31 bilhões de litros de biocombustível, as usinas de etanol de milho precisam comprar a matéria-prima dos agricultores.

Os moinhos de milho começaram a expandir a produção quando os preços domésticos do grão eram de cerca de 12 reais por sacola de 60 kg (132 libras). O crescimento da produção pecuária aumentou a demanda por grãos, juntamente com o biocombustível e as fortes exportações, elevando os custos de moagem dos processadores para cerca de 26 reais nos últimos meses.

Mesmo com a queda esperada no biocombustível, é provável que o milho permaneça em alta demanda por causa da produção de proteínas. Isso pode levar os custos de milho para as usinas a cerca de 35 reais no curto prazo, apertando ainda mais as usinas de etanol, disse Nolasco.

A fabricante de biocombustíveis São Martinho é uma das empresas preparadas para aumentar a produção de etanol de milho. Foi rebaixado recentemente pelo Bradesco BBI, partindo do princípio de que um projeto planejado de expansão de biocombustíveis em Goiás não será aprovado pelo conselho.

Embora São Martinho possa acabar avançando com o projeto a longo prazo, a decisão final pode ser adiada por um ou dois meses – até que essa turbulência se acalme, disse o diretor financeiro Felipe Vicchiato.